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Coisas da minha vida
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Coisas que penso, que sinto, que escrevo, que faço... Sábado, Agosto 30, 2008 Depois de 25 anos Edvar Gimenes de Oliveira De repente acordei com a lembrança de que há 25 anos minha vocação pastoral foi reconhecida oficialmente pelo sistema batista. Mediante parecer de um Concílio de Pastores que se reuniu por solicitação da Igreja Batista do Cordeiro, Recife, atendendo desejo da Igreja Batista do Pinheiro, Maceió, fui “consagrado” no dia 03 de setembro de 1983. Já pastoreava, de fato e com muito mais limitação, desde o início da adolescência, sem, obviamente, a amplitude, os requisitos e as qualificações exigidos para o exercício, digamos, profissional. Lembro-me de que, para cada pergunta dos examinadores, “fundamentei” bem a resposta com muito texto bíblico. Aprendi sob as mangueiras do seminário, com os mais experientes, que citar a Bíblia soaria como música aos ouvidos dos examinadores. Então, para todos os possíveis temas memorizei uma infinidade de textos. Durante os 25 anos seguintes continuei usando a Bíblia como livro texto, ainda que sem a ingenuidade, a motivação e a finalidade daquela ocasião. Muito mais por dúvida do que por devoção, continuo comparando minuciosamente o que ela diz com outras formas de enxergar a realidade, especialmente naqueles assuntos que meu limitado cérebro insiste em não encontrar sentido nas respostas dadas pelos gurus da vida. Ironicamente, dentre os que me examinaram como integrantes do Concílio, com poderes para “julgar, salvar ou condenar”, há quem já abandonou alguma das coisas pelas quais, naquele concílio, eram guardiães tais como doutrina, família, pastorado ou igreja. Alguns usam maquiagem e outros, como eu, continuam no pastorado como numa roda gigante. Sim, como numa roda gigante, estive nos ares e no chão, experimentei o céu e o inferno, e, se estou aqui contando a história, foi porque o eixo do brinquedo manteve-se firme. Diga-se de passagem, o eixo não quebrou, mas eu me senti quebrado “n” vezes em diversas áreas da vida pessoal e ministerial. Pior ainda: as vezes que estive no chão pareceram muito mais dolorosas e demoradas, dai estarem mais vivas na memória. Nesses 25 anos progredi muito. Já consegui me tornar como Moisés, Davi, Salomão, Isaias, Jeremias, Jesus, Pedro e Paulo. Como Moisés, já me senti sem fala e bati “nas pedras” com muito mais força do que deveria; como Davi me enchi de maus pensamentos e meus ossos doeram; como Salomão muitas vezes o pessimismo me dominou; como Isaias enxerguei-me profundamente pecador; como Jeremias continuo me achando uma criança chorona; como Jesus já fui crucificado, justamente, diga-se de passagem; como Pedro me acovardei e, como Paulo continuo dizendo: “miserável homem que sou!”. E as coisas boas? As coisas boas são ambulantes. Elas estão na memória daqueles que se sentiram abençoados por meu trabalho. Sei delas somente quando encontro alguém que se lembra de dizer o quanto uma atitude, palavra ou ação minha significou positivamente para os rumos da sua vida. O resto – números, tijolos, títulos ou cargos, por exemplo – não alimenta, antes engana a alma. Como diria o pregador, é vaidade! Depois de 25 anos sinto-me dependente da graça de Deus como um viciado em drogas. Com toda honestidade do meu coração, seja como pessoa, seja como pastor, quanto mais o tempo passa, mais descubro que viver é uma aventura na qual a alegria é experimentada exclusivamente pela graça de Deus. Dependo tanto dela a ponto de admitir que, se a teoria da predestinação, como advogada por alguns, fosse verdadeira e a minha predestinação fosse o inferno, iria com um riso nos lábios só por saber que foi plano de um Deus onipresente e gracioso. Ainda bem que, nesses 25 anos, aprendi também a não investir minhas energias em temas, como predestinação, escatologia, enfim, cujo resultado não pode ser alterado por minha vontade e ação, seja qual for a teoria em relação a eles. Por isso, vou tentando viver com honestidade e amor, acertando e errando, tentando ser gente. Tentar ser gente foi o que mais fiz nesses 25 anos de ministério. Já perdi muito por isso, mas nada que me levasse a me arrepender e a mudar de rumo. Continuo firme na “vocação”. Saberia viver sem ser pastor-executivo de empreendimento religioso, mas não saberia viver sem ser pastor-gente de gente.
postado por: Comments: Sexta-feira, Agosto 08, 2008 Salvador com prefeito batista? Edvar Gimenes de Oliveira, Mais uma vez a cidade do Salvador está diante da possibilidade de contar com um prefeito batista. O Deputado Federal Walter Pinheiro, membro da Igreja Batista da Pituba, é candidato à função. O último prefeito vinculado à igreja batista foi Clériston Andrade, da Igreja Batista da Graça, que ocupou o cargo por indicação de ACM, no período da ditadura militar. Sobre o atual – João Henrique - não disponho de informações precisas. Ouço do possível vinculo com igreja não filiada à Convenção, usuária da marca batista, mas sem compromisso com seus princípios históricos. Que diferença faria um prefeito batista? A resposta depende da qualidade de sua relação com Deus; do conhecimento e compromisso com princípios históricos defendidos por este segmento cristão; do conhecimento e capacidade administrativa e de sua habilidade política. Neste texto, me aterei apenas aos dois primeiros aspectos. Um prefeito com sólidas relações com princípios defendidos pelos batistas começaria fazendo diferença pelo profundo respeito que deveria demonstrar às pessoas, especialmente às empobrecidas. Isso porque seria incoerente um forte respeito e compromisso com Deus que não se expressasse igualmente aos semelhantes. Destacar os empobrecidos não significaria ser inimigo dos enriquecidos, mas reconhecer, no exemplo de Jesus (Lc 4.18) e na recomendação apostólica (Gal. 2.10), uma atenção especial aos que mais sofrem com a falta de acesso à educação, saúde alimentação, habitação ou transporte, por exemplo, por falta de justiça nas relações e estruturas sociais. Não se trataria de um prefeito sem erros, mas de um prefeito com forte e inequívoca predisposição para não cometer erros. A causa do seu sucesso ou fracasso não poderia ser atribuída à sua origem religiosa, mas, sem dúvida, ela seria um norteador essencial em suas decisões. Sua relação com Deus não seria puramente místico-contemplativa, pautada exclusivamente na necessidade de um protetor ou abençoador, mas, sobretudo, místico-ativa, comprometida com refletir tal comunhão através de uma ética com raízes profundas. Um prefeito com sérias relações com a história dos batistas não seria, também, um prefeito só dos batistas, mas de todos. Teria que saber separar as doutrinas e costumes que nos distinguem e nos separam dos demais cidadãos, daqueles que nos aproximam e fazem parte de anseios universais. Esperar o contrário seria transformar o prefeito em despachante denominacional. Isso, além de repetir erros de discriminação que tanto combatemos no passado, contrariaria princípios de convivência plural respeitosa pelos quais nossos pais tanto lutaram. Cada batista é livre para votar ou não em quem sua consciência mandar, independente das crenças do candidato. O fato, porém, de termos candidato de formação e compromissos batistas, escolhido por partido sem vínculos denominacionais, deve ser motivo de alegria. Isso indica que, a despeito da alienação que caracteriza parte de nossas igrejas e líderes, o espírito de Deus continua soprando e fazendo brotar aqui e ali sinais de esperança de uma fé engajada, portanto, viva e genuinamente espiritual.
postado por: Comments: Sábado, Junho 28, 2008 Administração batista Por uma administração transparente, democrática, austera e eficaz. Edvar Gimenes de Oliveira Vez por outra somos surpreendidos com notícias de instituições batistas enfrentando sérios problemas, geralmente na área financeira. O interessante é que os dirigentes são batistas cuidadosamente escolhidos, atuam cercados de profissionais vinculados a igrejas da convenção e seguem diretrizes de conselhos formados por dezenas de líderes democraticamente eleitos. Por que, então, surpresas desagradáveis não cessam de aparecer? Neste texto tentarei responder essa pergunta, apontando caminhos que poderão nos poupar de situações constrangedoras e, também, nos colocar na trilha da saúde em termos de administração. FALTA TRANSPARÊNCIA A primeira razão é a falta de transparência. Se a instituição por nós administrada está bem financeiramente, a informação é “escondida” para não chamar a atenção; se está mal, fazemos o mesmo para não sermos criticados ou haver risco de perda de emprego. A cada ano investimos um bom dinheiro em livros do mensageiro que logo após as assembléias vão pra lata de lixo sem nos dizerem muita coisa. As informações neles contidas, em alguns casos, não passam de histórias de atividades repetitivas de dirigentes realizadas sem conexão clara com a missão ou visão estratégica da instituição. Outras informações são colocadas de tal modo que mesmo técnicos da área não se entendem em torno delas. Somente poucos “iluminados” conseguem enxergar a realidade através do material fornecido. John Nisbitt, em “O líder do futuro”, escreveu: “a complexidade muitas vezes é usada como instrumento de camuflagem, enquanto a simplificação promove a transparência”. Por que optamos pela “complexidade”? Jeffrey Stinson escreveu o seguinte, sobre a transparência em relação ao salário da população, praticada na Suécia, Finlândia, Noruega e Escandinávia: “A política sueca de tornar pública a declaração de imposto de renda - como é na Finlândia e na Noruega - vem de uma tradição de abertura de informações e transparência de governo, exceto nos casos de segurança nacional e em alguns aspectos das investigações criminais”. Na Escandinávia, isso é uma tradição para indicar que “ninguém é melhor do que ninguém”. (http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/usatoday/2008/06/23/ult582u835.jhtm) Na cultura brasileira, por detrás da falta de transparência geralmente está ou a consciência das injustiças sociais entre os participantes ou uma latente atitude de corrupção. No caso batista, a experiência com Cristo e a contracultura cristã parecem não conseguir superar a cultura brasileira na qual nosso caráter é forjado. Por isso, nos agitamos sempre que um “convencional” pouco convencional se atreve a falar em transparência em nossas assembléias. FALTA DEMOCRACIA A segunda razão é a falta de democracia. Somos um povo inexperiente e imaturo em matéria de democracia. Para nós, democracia é ter o direito de escrever numa cédula o nome de candidatos a cargos públicos, dentre os apresentados por partidos políticos. Em relação às assembléias legislativas, a democracia existe somente no dia da eleição. Depois é a ditadura dos eleitos que deliberam desavergonhadamente de forma corporativa. Participar da pré-seleção, filiando-se a um partido político é um privilégio de uma elite, inclusive porque alguns líderes eclesiásticos ensinam que partido político é coisa do demônio. A vinculação da palavra democracia a eleições faz parte do jogo político comandado por aqueles que jamais gostariam que a população entendesse que democracia significa governo do povo e não somente eleição de dirigentes pelo povo. Essa compreensão nos levaria a darmos a mesma importância tanto ao processo eleitoral quanto a criação e manutenção de mecanismos eficazes, estruturas adequadas, que possibilitem o real governo sobre toda a coisa pública. Democracia, portanto, é a capacidade de governarmos as instituições públicas, mesmo não sendo seus executivos. Graças a líderes corajosos a CBB dá sinais de recuperação do poder de governança sobre suas instituições, perdido em uma estrutura que, parece, atendia muito mais a interesses de alguns “empregados e seus amigos” do que dos criadores e mantenedores do sistema. Democratizar, repito, não significa que todas as decisões administrativas de cada instituição devam ser tomadas mediante votação pelos mantenedores, mas que devem ser criados meios eficazes para o exercício da governança por todos os cooperadores do sistema. FALTA AUSTERIDADE A terceira razão é a falta de austeridade. Por faltar-nos clareza de missão, visão estratégica, programas, projetos e, numa hipótese pior, senso ético, não raras vezes os recursos disponíveis são utilizados de maneira indisciplinada, supérflua, luxuosa até. Não refletimos sobre a origem de cada centavo por nós administrado. Esquecemos-nos de que é resultado da fé e também, muita vez, do sacrifício de pessoas empobrecidas que deixam de poupar para sua aposentadoria ou de usufruir um pouco mais de conforto pela expansão do Reino de Deus. Há dirigentes que se esquece de que o dinheiro por eles administrado está em suas mãos porque, nas bases, pastores, líderes e gente simples trabalham diuturna e arduamente a fim de que dízimos sejam devolvidos com alegria. A maioria desses pastores, como em todas as categorias profissionais nesta injusta “sociedade” brasileira, não recebem salários decentes, mas suas igrejas não deixam de transferir, mensalmente, parte das parcas receitas para a cooperação denominacional. Por isso, devemos desenvolver uma atitude de austeridade e cobrar a lembrança e presença dela no uso dos recursos. FALTAM DADOS INDICADORES A quarta e última razão é a falta de indicadores do desenvolvimento de nossas instituições. Pela cultura da “palavra”, somos guiados por discursos eloqüentes e emocionantes e não nos interessamos por dados concretos. Não damos valor a dados que apontem a situação real de nossas instituições. Confiamos em discursos eletrizantes de líderes capazes de tirar leite de pedra e desprezamos aqueles que defendem a necessidade de dados quando da tomada de decisões. Para alguns, reivindicar dados é incompatível com a fé. Assim, um senso de credulidade ingênua predomina em nossas reuniões e, conquanto tenhamos, o tempo todo, a sensação de estarmos vencendo o jogo, pelo entusiasmo das palavras dos que discursam, vez por outra nos deparamos com a triste e dolorosa realidade de instituições à beira da falência ou falida. “Confira o placar do jogo” é a expressão usada por John Nasbitt, no livro já citado. Ele dedica um capítulo todo a exemplos de como os dados sobre a realidade nem sempre confirmam os discursos. Discursos são movidos por interesses de quem discursa e nem sempre condizem com a realidade. Prioridades são invertidas simplesmente porque, em vez de prestarmos atenção a dados, damos ouvidos a discursos carismáticos. Não consideramos que “é da natureza dos seres humanos virar a informação na direção das conclusões desejadas”, diz Nasbitt. Em agosto de 2007 o Conselho da CBB aprovou a criação de uma série de indicadores do desenvolvimento da CBB que deveriam ser levantados por cada instituição, referentes aos últimos 5 anos, a fim de podermos analisá-los e, a partir daí, verificarmos em que áreas estamos de fato progredindo, regredindo ou estagnados. No meu ponto de vista a disponibilização de tais indicadores é essencial tanto para diagnóstico, como para prognóstico. Sem eles nenhum batista pode dizer, com autoridade, se estamos ganhando ou perdendo, simplesmente porque não sabemos o “placar do jogo”. Estou convencido de que, sem transparência, democracia, austeridade e dados concretos, a administração batista estará sempre aquém da eficácia desejada e a mercê de surpresas desagradáveis.
postado por: Comments: Terça-feira, Maio 20, 2008 Ação e reação Edvar Gimenes de Oliveira "Para cada ação há sempre uma reação oposta e de igual intensidade." A chamada Terceira Lei de Nilton, também conhecida como Lei da Ação e Reação, se resume no seguinte, segundo a enciclopédia livre Wilkipédia: “Se um corpo A aplicar uma força sobre um corpo B, receberá deste uma força de mesma intensidade, mesma direção e sentido oposto à força que A aplicou em B.” Essa lei nos faz lembrar um princípio espiritual definido por Paulo que diz: “... tudo o que o homem semear, isso também ceifará. Porque o que semeia na sua carne, da carne ceifará a corrupção; mas o que semeia no Espírito, do Espírito ceifará a vida eterna.” (Gal. 6. 7-10) A essas duas citações, relacionamos um ditado popular, que diz: “quem com o ferro fere, com o ferro será ferido” Pretendo, com esses pensamentos, lembrar a mim mesmo de que nossas atitudes, palavras e ações têm poder para produzir efeitos positivos ou negativos em nossos relacionamentos. Por isso, antes de acusar alguém por algo ruim em minha vida, melhor seria fazer uma auto-crítica, verificando o que, daquilo que sou ou faço, gera reação nociva de alguém contra mim. A auto-avaliação nos ajuda a reorientar o agir, fazendo com que nossa presença seja causadora de efeitos positivos. A idéia, portanto, não é estimular uma postura racionalista visando descobrir quem está certo ou errado em determinado conflito, mas como agir conscientemente, tentando antever possíveis resultados. Diferente das leis da física, julgar quem esta certo ou errado em conflitos é uma tarefa árdua por não dispormos de fórmulas matemáticas para nos ajudar. Finalmente, em que pese a importância de nos conscientizarmos de nossas ações maléficas, para não mais repetí-las, nada substitui o uso do perdão e do agir misericordioso, como remédio poderoso para curarmos feridas do coração.
postado por: Comments: Os dramas da vida Edvar Gimenes de Oliveira A vida não é feita somente de dramas, mas eles estão presentes rotineiramente em nossa caminhada. Mesmo sabendo dessa presença, continuamos nos impressionando com eles. Impressionamos-nos com a história do pai que, tudo indica, atirou sua filha do sexto andar de um edifício ou com o outro, austríaco, que transformou sua filha de 18 anos em escrava sexual e, por 24 anos, a manteve em cativeiro, gerando 7 filhos-netos. Impressionamos-nos também com terremotos, como o da China, ou com o ciclone e maremoto em Mianmar, nessas semanas, nos quais milhares de vidas foram ceifadas. Tais acontecimentos, verdadeiras tragédias, trazem consigo uma infinidade de dramas que não são mostrados nas telinhas, nem estampados nas páginas dos jornais. São os dramas, por exemplo, de cada familiar ou amigo das filhas tratadas de forma tão brutal ou daqueles que sobreviveram às tragédias da Ásia, após verem soterrados seus, parentes, colegas, documentos, fotografias ou outros objetos, além do patrimônio construído, na maioria dos casos, com muito esforço! Sim, nossa vida é feita de dramas e, às vezes, tragédias. Nenhum de nós está imune. Ricos, pobres, amarelos, vermelhos, pretos, brancos, doutores, indoutos, mulheres, homens, crentes, incrédulos, crianças ou idosos, ninguém está livre da presença deste gênero teatral na redação da história da vida. O que mais impressiona, entretanto, não é só o fato indiscutível de acontecimentos comoventes que revelam, desnudam, de maneira dolorosa a fragilidade humana. O que também chama minha atenção é como nos colocamos de maneira orgulhosa, egoísta, indiferente, muita vez má mesmo, diante dos semelhantes, como se vivêssemos numa redoma, imunes às dores provocadas pelos dramas da vida.
postado por: Comments: Sexta-feira, Maio 09, 2008 Flores de aço Edvar Gimenes de Oliveira Não assisti ao filme “Flores de aço”, que retrata a luta de diversas mulheres de perfis diferentes diante dos desafios da vida, mas o título impressionou-me por resumir de maneira excepcional qualidades presentes neste ser que chamamos mulher. Basta analisarmos a dimensão “mãe” da personalidade feminina para comprovarmos isso. Houve tempo em que ser mãe não era uma a opção, mas uma imposição circunstancial. A mulher não tinha, digamos, poderes sobre seu corpo. Pelas limitações do controle sobre a fecundação, os relacionamentos sexuais eram acompanhados do fantasma da gravidez. O prazer do ato pertencia ao homem e à mulher cabia cuidar do resultado – filhos em série. Sem as condições tecnológicas disponíveis hoje (freezer, geladeira, micro-ondas, fogão à gás, máquina de lavar, ferro e chuveiro elétrico, liquidificador, etc ) e vivendo numa economia predominantemente agro-pecuária, a mulher se desdobrava entre as tarefas de cuidar da casa e educar filhos. Se o filho se tornasse uma pessoa sensata, era alegria “para o pai”; se insensato, tristeza “para a mãe”. (Pv. 10,1) Com o advento de anticoncepcionais, ser mãe tornou-se uma opção. O controle sobre o próprio corpo passou a ser exercido numa sociedade industrializada e urbanizada e o acesso ao mercado de trabalho gerou autonomia econômico-financeira. O problema é que a velocidade do avanço cultural não acompanhou a do econômico-tecnológico e a maioria dos maridos continua agindo “como nossos pais”. Assim, apesar das vantagens do nosso tempo, conciliar vida profissional com maternidade continua um desafio. Que elas são belas e sensíveis como flores e fortes e batalhadoras como aço, ninguém dúvida. Mas à nossa geração, cabe a responsabilidade de uma mudança cultural que permita uma conciliação mais prazerosa dos diversos papéis atribuídos à mulher em nossa sociedade, especialmente o de ser mãe!
postado por: Comments: Dízimo, rol de membros e cultura religiosa Edvar Gimenes de |Oliveira Recolhimento de dízimos e preocupação com Rol de Membros são duas coisas que muitos acham estranho numa igreja batista. É que a cultura religiosa brasileira, desenvolvida sob a hegemonia da Igreja Católica, não está acostumada com tais questões. Em relação ao dízimo, durante séculos o tema não fez parte das missas católicas pelo fato da Igreja ser sustentada, como ainda é em diversos paises, com dinheiro do Estado e de milhares de propriedades que lhes rendem muito dinheiro. Ainda hoje, a titulo de preservação cultural e outros mecanismos, cada brasileiro que não segue a fé católica paga pela manutenção ou restauração de templos. Já as igrejas batistas, sustentadas pelo compromisso de seus membros, dependem da fidelidade deles. Isso, além de possibilitar uma administração financeira democrática, transparente e austera, lhes dá autonomia para atuar como consciência do Estado por não depender de impostos para se manter. Por isso, o recolhimento de dízimos nos cultos, comum, por exemplo, na cultura americana, dominada por igrejas livres, é estranho para brasileiros, que acreditam não precisar contribuir na Igreja Católica. Quanto ao rol de membros, o sistema de governo batista é congregacional, isto é, são os membros, reunidos em assembléias locais que, democraticamente, têm o poder de definir os rumos da igreja. Nenhum poder, interno ou externo, se sobrepõe ao dos membros reunidos em assembléia. O mesmo não ocorre na Igreja Católica e em boa parte das igrejas protestantes, pentecostais ou pós-pentecostais. Daí o cuidado que temos em manter uma relação de membros atualizada, de acordo com estatutos devidamente registrados em cartório e de Regimentos Internos, aprovados em assembléia.
postado por: Comments: Quinta-feira, Abril 24, 2008 O pastor e a política Edvar Gimenes de Oliveira Ainda há quem diga que pastor não se envolve com política. Tal afirmação, obviamente, não é verdadeira, pois pastor é gente e a dimensão política faz parte da essência humana. Basta definirmos política como a arte de se construir uma caminhada saudável entre pelo menos duas pessoas, para confirmarmos que pastor não pode ser excluído desta realidade. Além disso, duas outras razões explicam a referida crença: primeira, o equívoco de não fazermos diferença entre política como parte essencial da sobrevivência humana, da política partidária; segunda, a herança teológica baseada no ensino de que nossa preocupação deveria ser com o céu, pois aqui tudo é passageiro e, portanto, participação política seria coisa para incrédulo. Tal pensamento resultou na drástica redução da presença de cristãos sérios na construção das políticas das cidades, contribuindo decisivamente para o estado de putrefação ética que impera nas diversas esferas da sociedade. E o pastor com isso? O pastor é um formador de opinião. Suas palavras têm o poder de ajudar pessoas a tomarem decisões que beneficiam ou prejudicam a coletividade. Suas mensagens não são neutras. Elas geram ação, reação, omissão ou alienação, por isso, jamais podem ser consideradas sem influência. Vez por outra me pergunto o porquê dos seminários ensinarem filosofia, psicologia ou sociologia da religião e silenciarem sobre política da religião. Saímos da ditadura militar a quase 30 anos e, conquanto a ação pastoral influencie a cidadania terrestre e a democracia batista exija habilidade em negociação, a política continua excluída da educação ministerial. Como resultado, enquanto alguns controlam as relações de poder nas instituições eclesiásticas, às vezes de maneira pouco ética, a maioria assiste, murmurando, a sofrida, cambaleante e lenta caminhada de muitas igrejas e convenções. Curioso é que, se fizermos um estudo profundo dos estatutos e regimentos de nossas organizações ou se observarmos nossas reuniões administrativas, perceberemos cristalinamente a presença da política. Entretanto, insistimos em não admitir que pastor também seja um ser político e continuamos condenando o envolvimento dos “crentes” na política. Por que não discutimos isso às claras? A quem interessa não tratar deste assunto? Por que esta temática não é incluída na agenda denominacional para, por exemplo, discutirmos quais seriam os valores ético-espirituais que deveriam nortear as ações políticas do pastor? Por que continuamos afirmando que pastor não se envolve em política? Por que fazemos de conta que este tema não é relevante? Morro de vergonha cada vez que fico sabendo de pastor que trata políticos partidários como despachantes cinco estrelas; que procuram “nossos” representantes para pedir ônibus, emprego e outras coisas mais e usam o voto de membros da igreja como moeda de troca, transformando suas comunidades em curral eleitoral. Não é por acaso que, geralmente, os que mais agem assim, são também os mais contrários à discussão do assunto em nosso meio. Enquanto isso eles continuam fazendo política de qualidade ética ruim, usando o prestígio e o raio de influência, conferidos por suas funções nas estruturas eclesiástico-denominacionais. Sugiro, por isso, que admitamos a natureza política da nossa função e invistamos em leituras, participação em congressos, seminários, que nos ajudem a clarear, não se devemos ou não exercer papel político – fato óbvio –, mas como exercê-lo e por quais princípios e valores sermos norteados.
postado por: Comments: Sexta-feira, Fevereiro 29, 2008 O lado maternal de Deus Edvar Gimenes de Oliveira “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, apedrejas os que a ti são enviados! Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos, debaixo das asas, e não quiseste!” (Mt. 23.37) Fomos criados à imagem de Deus. Porém, no exercício equivocado de nossa liberdade, tal imagem se desfigurou fazendo com que nossa identificação com ele se tornasse um desafio. Isso afetou o relacionamento interpessoal levando-nos a agir, muita vez, de maneira diametralmente oposta ao desejável. Um retrato disso está expresso nas palavras de Jesus dirigidas a Jerusalém. Nelas percebemos um ser humano que apedreja, rejeita, mata, se contrapondo a um ser divino que ajunta, acolhe, cuida. Interessante ainda é Jesus apresentar-nos a personalidade de Deus utilizando uma imagem maternal. Fazendo isso ele abre espaço para percebermos a dimensão feminina da personalidade divina. Parece contraditório Jesus referir-se a Deus como Pai se ele mesmo ensinou explicitamente que Deus é espírito (Jo 4.24) e, portanto, não poderia ser definido como macho ou fêmea. Porém, ao tratar Deus como pai, Jesus apenas fazia uso da linguagem que melhor comunicava a mensagem na cultura patriarcal da qual fazia parte. A compreensão deste aspecto teológico é fundamental, primeiro, para consolidarmos a imagem da mulher como sendo tão divina e digna de respeito quanto à do homem (Gen 1.27) e, segundo, para que nós homens não nos envergonhemos de nos identificarmos com ações cultural e machistamente definidas como sendo femininas, como, por exemplo, o acolhimento, o cuidado, a bondade e o choro. As mulheres também devem identificar-se com o lado maternal divino, em vez de agir e reagir como fazem homens afastados de Deus. Se homens e mulheres fizerem isso, criamos condições para o surgimento de uma sociedade em que, em vez de apedrejamento e morte, prevaleça solidariedade e vida.
postado por: Comments: Dinheiro ou deus? Edvar Gimenes de Oliveira “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar a um e amar o outro, ou há de dedicar-se a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas.” (Mt 6.24) Não vivemos sem dinheiro. Quem não o tem, depende de quem tem. Jesus, por exemplo, não tinha onde reclinar a cabeça (Mt 8.20), por isso dependia, dentre outros, de “Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes, Susana, e muitas outras que os serviam com os seus bens” (Lc 8.3), e tinha um auxiliar, responsável pela bolsa de ofertas (Jo 12.6). O dinheiro move o mundo. Todos dependemos dele, por isso ele nos fascina. Porque nos fascina, cremos que fascina também a Deus. Daí alguns tentarem conquistar o criador com dízimos e ofertas e algumas igrejas enriquecerem manipulando aqueles que acreditam que Deus se deixa manipular. Uma das evidências de que o dinheiro é deus de alguns, é sua utilização como meio de pressionar pessoas a fazerem o eles que desejam. Isso funciona por haver quem tema a existência sem dinheiro, quando deveriam temer a vida sem Deus (Mt 10.28). A causa da idolatria do dinheiro está na falta de conversão. “Zaqueu, porém, levantando-se, disse ao Senhor: Eis aqui, Senhor, dou aos pobres metade dos meus bens; e se em alguma coisa tenho defraudado alguém, eu lho restituo quadruplicado.” (Lc 19.8). Quando Deus ocupa o coração, o dinheiro ocupa apenas o bolso. Quer saber quem é o deus de alguns membros da igreja? Verifique a lista de contribuições financeiras. A ausência de alguns é fruto muito mais de pobreza espiritual do que econômica. A causa é a inversão de prioridade, incredulidade ou infidelidade, muito mais do que pobreza. Comparando a atitude dos fariseus com a de uma viúva, na dedicação de dízimos Jesus disse: “todos deram daquilo que lhes sobrava; mas esta, da sua pobreza, deu tudo o que tinha, mesmo todo o seu sustento.” (Mc 6.44). O que ele diria daqueles que sequer dão das sobras? Não há incompatibilidade entre Deus e o dinheiro. O problema está na natureza da relação que mantemos com ambos. Dinheiro é pra ser usado e não pra ser servido. Servir, somente a Deus.
postado por: Comments: Segunda-feira, Fevereiro 18, 2008 Tentando ser pastor Desde que me senti vocacionado para o pastorado tenho tentado ser pastor. Tenho tentado não permitir que a figura de executivo de empresa religiosa ou de artista de show da fé encarnem minha personalidade ou determine o perfil das atividades pastorais. Tenho tentado não deixar que a paranóia pelo aumento de frequentadores nos cultos ou das receitas financeiras, sacrifiquem a fidelidade a valores universais do Reino de Deus, como amor, justiça, graça, misericórdia, verdade, liberdade, honestidade... Tenho tentado olhar as pessoas como gente e não como cifrões e estimular a igreja a gerenciar seus recursos financeiros com transparência, austeridade e democracia, visando alcançar objetivos estabelecidos à luz de ensinos e exemplos de Jesus. Tenho tentado ser fiél a princípios bíblicos que perduram no tempo e espaço, distinguindo-os daqueles que retratam a cultura de uma época. Tenho tentado ensinar a Bíblia reflexivamente e não reprodutoramente, estudando demoradamente, com interessados, textos que possam ajudá-los a construir um estilo de vida saudável para si e coletivamente. Tenho tentado não valorizar ou discutir picuinhas doutrinárias, responsáveis por partidarismo político religioso, geradas por líderes egocêntricos e dominadores travestidos de falsa espiritualidade. Tenho tentado ser eticamente liberal, naquilo que, acredito, devemos ser liberais; conservador, naquilo que, acredito, devemos ser conservadores, sem me preocupar em me enquadrar num rótulo que possa agradar este ou aquele segmento da igreja, das estruturas religiosas ou da sociedade em geral. Tenho tentado ser honesto na exposição de meus pensamentos, compartilhando a forma como entendo os acontecimentos da vida sem buscar aplausos de platéias, sejam elas quais forem. Tenho tentado tratar com respeito o direito que todos temos de construir e preservar nossas próprias opiniões. No que depende do meu espaço de influência, tenho defendido o direito de discordarmos e expressarmos nossos pontos-de-vista, mesmo diferentes dos do grupo transitoriamente dominante. Tenho tentado priorizar o ser verdadeiro, muito mais do que o ser político ou popularmente marqueteiro. Tenho tentado divulgar, através da imprensa, idéias que possam sem ser úteis ao povo e não instrumentos de propaganda de um segmento religioso. Faço isso na crença de que Deus não está interessado no bem estar somente de pessoas filiadas a partidos religiosos, conhecidos por uma infinidade de nomes – marcas - eclesiásticos. “Deus amou o mundo...”, portanto, não somente os frequentadores de igreja. Tenho tentado ser um pastor disponível. Tenho tentado me relacionar bem com todos, não fugindo de divergências, discussões, às vezes calorosas e necessárias, sem, entretanto, guardar mágoas ou amarguras que bloqueiem os não menos calorosos e necessários momentos de afeto. Tenho tentado ser transparente, não blefar, nem usar de meias verdades. Quando preciso dizer sim, tento dizer sim; quando não, não. Tenho tentado não fugir de adotar medidas dolorosas, quando uma omissão colocaria em risco o bem-estar de um grupo maior de pessoas. Tenho tentado compatibilizar interesses individuais com os institucionais, pois, embora o indivíduo valha mais do que a instituição, sem instituições a vida individual murcharia. Tenho consciência de ter pecado muitas vezes na caminhada ministerial. Nem sempre acertei o alvo, nas minhas tentativas. Nem sempre pude prever e muito menos evitar, efeitos colaterais dolorosos que não gostaria que tivessem ocorridos em certas tentativas de acerto. Meus pecados, entretanto, não têm sido por falta de tentativas sinceras e bem intencionadas, nem, muito menos, por má-fé. Por isso, continuarei tentando, não desistirei de ser pastor. Espero que aqueles que me cercam, compreendam e ajudem-me no cumprimento da minha vocação. E, como eu tenho tentado ser pastor, continuem eles, também, tentando ser verdadeiras ovelhas de Jesus Cristo.
postado por: Comments: Quarta-feira, Janeiro 09, 2008 Lutando do lado certo Edvar Gimenes de Oliveira “...eu acho uma covardia muito grande uma pessoa se inclinar só porque não tem possibilidade de vitória na luta. Eu luto até o fim. Se não tem possibilidade de vitória, eu vou, porque não me preocupa vencer, me preocupa saber se eu estou do lado certo” (Ariano Suassuna) Conversei com Ariano Suassuna somente uma vez. Ex-aluno do Colégio Americano Batista, certa manhã ele esteve em meu escritório para agradecer a homenagem que prestamos a ele por ocasião de sua eleição para a Academia Pernambucana de Letras. Foi uma hora de história, cultura, lágrimas e riso. Agora, lendo a revista Metrópole (Set. 2007), deparei-me com um importante pensamento dele. Penso igual, por isso publiquei-o em epígrafe. Há muitos anos conclui que a vitória, conquanto almejada, nem sempre é o único resultado positivo de uma batalha. Há outras coisas numa luta que também nos dão prazer. Saber que está do lado certo é uma delas. Ex-viciado em futebol, não poucas vezes saí de campo derrotado no placar, mas realizado por participar de bonitas jogadas, brincar com amigos ou queimar calorias. Óbvio, não era profissional. Não tinha compromisso com títulos, torcida, patrocinadores ou arrecadação financeira de club. A vida é assim: nossos compromissos determinam nossas atitudes nas disputas. Pastoreando na Flórida, num trabalho de natureza missionária, cada pessoa da congregação fazia grande diferença. Lembro-me, porém, de duas famílias que se afastaram. A primeira retirou-se porque convidei uma senhora para pregar; a segunda, por descobrir minha preferência na corrida presidencial americana. Óbvio, minha crença em que homem e mulher foram criados à imagem e semelhança de Deus impede que me dobre à cultura política machista que torna inferior ou subjuga o sexo oposto, sob falsos fundamentos “bíblicos”. Quanto à postura política, a família, cega pelo competente discurso fundamentalista, deduziu que eu era contrário aos "propósitos divinos para a América". Hoje, até o planeta colhe os resultados maléficos da escolha da maioria! Lutar por mais membros na igreja é importante, mas não a qualquer preço. Não escolhe o lado certo, quem não se preocupa saber se está do lado certo. Muito menos, sem conhecer o outro lado através de pesquisa, diálogo e reflexão. Além disso, é fundamental posicionar-se com coragem, mesmo provocando desagrado. Temos procurado saber se estamos do lado certo?
postado por: Comments: Sexta-feira, Dezembro 28, 2007 A igreja que queremos ser em 2008? Edvar Gimenes de Oliveira Em 2008 pretendemos ser uma igreja irrelevante, sem qualquer importância para aqueles que vivem ao nosso redor ou participam das atividades que promovemos. Não estamos interessados em caminhar com objetividade. Preferimos agir de acordo com “o que ocorrer”, até porque a vida não tem qualquer sentido e seu surgimento não tem qualquer finalidade. Coerentes com essas crenças, nada planejaremos para alterar o curso da realidade. Na verdade, não cremos que haja motivos para alterarmos a realidade. Nada há que possamos fazer, pois o planeta está destinado à destruição e, portanto, tudo é vaidade. Nesse universo de ilusões extrairemos o máximo de prazer que o curto prazo, as coisas e as pessoas puderem oferecer. Pensaremos exclusivamente em nós ou, no máximo, naqueles que, como nós, gostam de tirar vantagem de tudo, ser o centro das atenções e levar a vida de maneira superficial. Se sem qualquer esforço ou planejamento, conseguirmos que todos vivamos num mundinho de ilusões, numa espécie de passatempo eclesiástico, num jogo de disputas cujo troféu é demonstrar que somos os mais capazes de manipular a vida alheia através de mentiras, hipocrisia ou aparência de espiritualidade, nos sentiremos realizados. Não faremos qualquer investimento em prol da reflexão em conjunto, visando elaborar, elucidar ou aprofundar concepções como, por exemplo, de Deus, ser humano, mundo, interioridade, relacionamento interpessoal ou ética social. Muito menos nos preocuparemos em fazer qualquer correlação entre teoria e prática. Antes, investiremos ou num racionalismo paralisante ou num emocionalismo que desnorteia. Se a isso conseguirmos acrescentar algumas disputas por poder ou uma boa dose de fofocas e maledicências para quebrar um pouco a monotonia, nos sentiremos bastante realizados. Assim, ao final de 2008, receberemos 2009 cheios de esperança de que tudo se repita até que a morte nos separe.
postado por: Comments: Terça-feira, Dezembro 18, 2007 Mensageiros da paz? Edvar Gimenes de Oliveira Não somos mensageiros da paz que transparece quando “dormem todos em redor”, nas palavras de Josef Mohr, do clássico natalino “Noite de Paz”. Quando todos dormem, inexistem relacionamentos, portanto, somente observadores, não incomodados, definem a situação como sendo de paz. Não somos mensageiros da paz encontrada no Bosque da Paz, conhecido cemitério de Salvador. Se os ali sepultados pudessem escolher, prefeririam a aflição dos vivos à paz dos mortos. Não fomos chamados para ser mensageiros da paz onde não existe movimento, expressão de pensamentos, sentimentos ou vontade. Não somos mensageiros da paz que resulta do medo. O medo reprime sentimentos e paralisa ações. Fui criado num tempo em que se brincava livremente pelas ruas da cidade. Briga entre meninos, era comum. Certa vez, por brigar e apanhar, meu pai disse: não brigue, se brigar não apanhe, se apanhar não volte pra casa chorando, senão apanhará novamente. Tais palavras passaram a nortear meus relacionamentos, mas, no curto prazo, fizeram com que eu não brigasse movido apenas pelo medo de apanhar duas vezes. Sim, somos mensageiros da paz que brota da coragem para dizer não a tudo - pessoas, estruturas, sistemas – que obscurece valores divinos, como por exemplo, amor, verdade, diálogo, justiça, lealdade, honestidade ou transparência, mesmo que, para brilharem intensamente, precisem ser gerados sob tensão. Sim, somos mensageiros da paz que, se preciso for, é construída virando a mesa dos comerciantes que exploram peregrinos no templo ou combatendo veementemente a postura de religiosos que aparentam espiritualidade orando nas praças, mas que, às escondidas, roubam indefesas viúvas. Sim, somos mensageiros da paz que têm Jesus Cristo como paradigma “porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; e, derrubando a parede de separação que estava no meio, na sua carne desfez a inimizade” (Ef. 2.14). Virando mesas, derrubando paredes ou derramando o próprio sangue se preciso for, somos desafiados, neste natal, a sermos bem-aventurados pacificadores, verdadeiros mensageiros da paz!
postado por: Comments: Sexta-feira, Dezembro 07, 2007 Sou firme naquilo que faço. O que faço é que não me deixa firme! ...................................... Penso que nasci pra ser mochileiro. É que me sinto permanentemente pronto pra partir. Pra onde? Não me pergunte. Na verdade não sei. Sinto-me pronto pra partir desta pro "outro lado", ainda que goste de muitas pessoas e pensar na vida sem elas não é algo que me dá prazer. Sinto-me sempre pronto pra partir para outros lugares. Gosto do que chamo de conforto mínimo, trabalho e faço o meu melhor para tê-lo, mas não sou capaz de qualquer coisa por ele. Por isso, por melhor que seja o lugar onde estou, hoje encaro-o como mais um lugar que pode proporcionar-me bons e maus momentos. Na verdade, não é o lugar que determina nossa alegria, mas as pessoas que nele habitam. Nem mesmo a quantidade de pessoas é essencial. Às vezes a multidão sufoca. Precisamos mesmo de meia dúzia de pessoas que confiamos ser amigas leais. O lugar tem influência, mas não é preponderante. Sinto-me pronto para partir para outras experiências. Sou pastor, mas a definição de pastor é algo tão amplo, tão elástico, não só na história bíblica da palavra, mas na realidade que consigo enxergar que, penso, acabaria exercendo alguma faceta do pastorado em qualquer lugar ou tipo de experiência que pudesse vir a ter. Sinto-me vocacionado, mas não um escravo de definições do que isso possa significar. Minha vocação é pela vida, pela defesa da vida, por qualidade de vida, seja aqui, ali ou acolá. Talvez por isso sinto-me permanentemente pronto para partir.. Pode parecer paradoxal, mas não gosto de viajar. Gosto de ficar em casa ou, pelo menos, saber que as pessoas que amo e minhas coisas estão bem ali, à disposição, acessível. Sinto-me pronto pra partir. Estou com as malas prontas. Estou voltando pra casa. Voltar, neste caso, é melhor que partir, porque partir é o mesmo que voltar. Se voltar é o mesmo que partir, isso me faz sentir ainda mais pronto para partir agora porque vontando estarei partindo para o encontro de pessoas que amo, ainda que voltando vou deixando pra trás pessoas não menos amadas! Não ache ruim se eu partir. O problema não está em você. É um sentimento meu! Talvez Freud explique... Bye, bye, Recife!!!
postado por: Comments: Segunda-feira, Dezembro 03, 2007 Futebol, Venezuela e democracia Edvar Gimenes de Oliveira Domingo passado, enquanto estávamos interessados em quais equipes cairiam para a segunda divisão do futebol e quais disputariam a Copa Libertadores da (s) América (s) em 2008, o povo venezuelano ia às urnas decidir o destino político, econômico e organizacional do seu país, decisão que poderia abrir novos (?) rumos para a América Latina. Sem dúvida, o futebol é uma atividade prazerosa. Já fui viciado em futebol; escalei muro de estádio por não poder pagar ingresso; chorei pelo glorioso Santos Futebol Club e trago no meu corpo – um pé fraturado e um desvio de septo – as marcas desse esporte mais popular do planeta. Porém, conquanto experimentemos emoção cada vez que um balão “de couro” cheio de ar atravessa traves de ferro e se choca com redes de nylon, deveria ser mais forte a emoção que uma cédula provoca ao adentrar uma urna ou, numa versão mais moderna, o toque da urna eletrônica ao registrar o voto, no exercício democrático. Se assistir futebol proporciona momentos de prazer, o exercício da atividade política produz conseqüências amplas, profundas e benéficas à vida. Enquanto o apego ao futebol pode desviar nossa atenção dos problemas, o exercício político é importante caminho para solucioná-los. Como é agradável perceber que o povo venezuelano é capaz de dizer não tanto à exploração e exclusão capitalista, quanto a um líder “bushianamente” autoritário, da mesma forma como o povo americano disse não ao fundamentalismo político nas últimas eleições legislativas daquele país. Vibrei com as conquistas do Vitória e do Bahia. Não posso negar que vir o Corinthians cair pra segunda divisão encheu-me de munição pra me divertir com alguns amigos “fiéis”. Porém, o referendo da Venezuela, o exercício democrático, despertou muito mais interesse, especialmente às vésperas de um ano em que elegeremos novos (?) dirigentes municipais.
postado por: Comments: Quinta-feira, Setembro 13, 2007 Bem, hoje amanheci com vergonha de ser eleitor brasileiro. Estou envergonhado não porque eu tenha cometido ato de corrupção, mas por sentir-me responsável pela composição de um Senado corrupto (ainda que quase 50% dos senadores tenham votado pela cassação de Renan). Mais uma vez nossos políticos tripudiam, dançando a dança do mal. A esperança é sempre a próxima vez, a próxima eleição. Ainda que o sistema seja favorável à manutenção das coisas como estão, tentarei fazer ainda melhor da próxima vez visando livrar o Congresso dos políticos dançarinos!
postado por: Comments: Quinta-feira, Agosto 09, 2007 Nossos filhos Edvar Gimenes de Oliveira Eles fazem parte de nós antes mesmo de encontrarmos a pessoa com quem pretendemos compartilhar nossas vidas. Ao lado dessa pessoa, sonhamos sobre perfil, quantidade e alternativas de momentos a serem vividos com os futuros filhos. Com o casamento, o sonho começa a se concretizar. Durante a gravidez os investimentos ganham formas. O cuidado com a saúde da mãe, a elaboração do orçamento familiar, as modificações na organização do espaço físico do lar, tudo, tudo gira em torno do esperado. Nove meses depois começa a realidade. O conceito “beleza” é sufocado pelo “ternura”, “amor” e eles, minutos depois de nascerem, já são considerados a coisa – isso mesmo, aquela coisa! - mais lida do mundo. E ai de quem pronunciar definição diferente! A ordem da vida conjugal sofre alteração. Todos os recursos - energia, afeto, atenção, enfim – são canalizados para eles. Maridos preparados para o evento, conformam-se em se tornar coadjuvantes; os mais despreparados ficam enciumados e até agressivos. Há casamentos que sofrem seu primeiro abalo! Eles, entretanto, conquanto frágeis, continuam “prepotentes” em seu “trono berçal”. Parece que, descobrindo que causaram desordens, começam a amaciar nossos corações com sorrisos tímidos que vão ganhando força e sons. Por estes sorrisos trocamos, sorrindo, fraldas com xixi e coco com o mesmo prazer que trocamos nossas roupas antes de uma festa. Eles vão crescendo e se transformando; mudando-se e se distanciando, primeiro, psicologicamente e, depois, fisicamente. E nós que sonhamos com a chegada deles antes do nascimento, depois que partem, fazem com que fiquemos sonhando com a volta, o beijo, o abraço, os sorrisos, os sons de suas vozes, as idéias que construíram, as histórias que escreveram e os sonhos que acalentam. E choramos e sorrimos com eles e por eles, por toda a vida.
postado por: Comments: Sábado, Julho 14, 2007 Tempestades à vista? Edvar Gimenes de Oliveira Não sei como anda sua vida. Não sei se está num momento de paz ou de conflito, de alegrias ou tristezas, de claridade ou de trevas... Não sei se já parou para pensar sobre o que teria contribuído para este momento e, caso já tenha avaliado, se já pode dizer à luz das evidências, quais seriam as possíveis causas daquilo que está experimentando agora. Uma coisa posso te dizer: "...sou eu que conheço os planos que tenho para vocês, diz o Senhor, planos de fazê-los prosperar e não de lhes causar danos, planos de dar-lhes esperança e um futuro" (Jeremias 29.11) Então, se o momento for de tempestades, pense que: "...também nos gloriamos na tribulação, porque sabemos que a tribulação produz perseverança, a perseverança um caráter aprovado; e o caráter aprovado, esperança. E a esperança não nos decepciona; porque Deus derramou seu amor em nossos corações, por meio do Espírito Santo que Ele concedeu. " (Romanos. 5.3-5) Sugiro, por isso, que trabalhe sua vida, no sentido de alcançar um nível de intimidade com Deus e de confiança nele que possa afirmar como Paulo: "...aprendi a adaptar-me a toda e qualquer circunstância. Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura. Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade. TUDO POSSO NAQUELE QUE ME FORTALECE" (Fil. 4.11-13). Lembra-se daquele cântico infantil? "Com Cristo no barco tudo vai muito bem...e passa o temporal" Pois é, todos passamos por tempestades, mas a tempestade também passa!
postado por: Comments: Terça-feira, Junho 12, 2007 Cidade, sonho e realidade Edvar Gimenes de Oliveira Passado o frisson da inauguração de novo Shopping na cidade do Salvador, fomos conhecê-lo. Ficamos profundamente impressionados. Conhecendo diversos shoppings no Brasil e no exterior, sem dúvida, o recém inaugurado nada deixa a desejar. Fascina o tamanho dos corredores, a quantidade e o bom gosto dos espaços de convivência, a decoração com plantas, a iluminação, a moderna tecnologia e a preocupação com a ecologia. Inegável, também, a sensação de organização, limpeza e segurança. Com isso, quase todos os itens almejados, para vivermos na cidade dos sonhos, são encontrados nele. A diferença entre este modelo de shopping no Brasil e os do chamado primeiro mundo está no significado. Enquanto lá ele é apenas mais uma alternativa de compras, aqui ele, em certo sentido, projeta o que desejamos que fossem nossas cidades: bonitas, organizadas, limpas e seguras. Porém, ao sairmos desta cidade dos sonhos, sentimos logo a diferença. As condições da cidade real nos chocam, quando comparadas. Nela, a falta de oferta de educação de qualidade, de trabalho que proporcione renda adequada e de justiça social faz com que predomine uma situação oposta. A maioria da população sente-se acanhada até para transpor os portais do mundo das fantasias, seja pelas limitações financeiras, seja pelas dificuldades de adaptar-se à forma de conduzir-se em espaços tão chiques. São milhões de homens e mulheres, jovens e adultos, trabalhadores dedicados, vítimas de uma sociedade ainda distante de oportunizar um estado de bem-estar social aos que trabalham para conquistá-lo. Que novos shoppings surjam, não para refúgio de uma minoria que consegue se beneficiar do sistema e pode neles passear e consumir em suas lojas, mas para nos alertar, apontando as gritantes diferenças entre a cidade dos sonhos e a realidade.
postado por: Comments: Quarta-feira, Junho 06, 2007 Pastor Edvar Gimenes de Oliveira Palavras são seres vivos cujos significados sofrem constantes mutações. Seus usuários, como deuses poderosos, dão-lhes vida curta, no contexto de uma conversa a dois, ou longa, com tanta vitalidade que ultrapassa barreiras geográfico-temporais. A palavra ¿pastor¿ é um exemplo. Na Bíblia aparece, inicialmente, referindo-se a trabalhadores ¿ homens e mulheres - que exerciam atividade profissional nos pastos, cuidando, por exemplo, de ovelhas. Daí evolui, sendo diversamente aplicada até nossos dias. Na boca de Davi, refere-se a Deus, o provedor que não permite a falta do alimento e nos conduz, protegendo-nos do mal: ¿O Senhor é meu pastor e nada me faltará.¿ (Sal. 23.1) Nas profecias de Jeremias, refere-se a governantes políticos: ¿e vos darei pastores segundo o meu coração, os quais vos apascentarão com ciência e com inteligência.¿ (Jer. 3.15) No contexto do Natal está associada a testemunhas do nascimento de Jesus: ¿...diziam os pastores uns aos outros: Vamos já até Belém, e vejamos isso que aconteceu...¿ (Lc. 2.15) Nas palavras de Jesus encontramos as idéias: a) de liderança para multidões desorientadas: ¿Vendo ele as multidões, compadeceu-se... porque andavam desgarradas e errantes, como ovelhas que não têm pastor.¿ (Mt. 9.36) b) de interesseiros: ¿Mas o que é mercenário, e não pastor... vendo vir o lobo, deixa as ovelhas e foge...¿ (Jo. 10.12) c) de um Deus-juiz: ¿... e ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos;¿ (Mt. 25.32) Nas penas de Paulo, é manifestação carismática em favor da igreja: ¿E ele deu... outros como pastores...¿ (Ef. 4.11) Na carta de Judas, são guias egoístas e improdutivos: ¿pastores que se apascentam a si mesmos sem temor; ...nuvens sem água, levadas pelos ventos; ... árvores sem folhas nem fruto, duas vezes mortas, desarraigadas; (Jd. 1.12) Em nossos dias pode significar alguém que ajuda pessoas, emprestando ouvidos, aconselhando, proferindo palestras, dirigindo instituições religiosas numa espécie de executivo ou até mesmo charlatões, comerciantes da fé que se alimentam das carências humanas. E você, que significado dá à palavra pastor, neste Dia do Pastor?
postado por: Comments: Sexta-feira, Maio 25, 2007 Lealdade Edvar gimenes de Oliveira Lealdade é palavra essencial no vocabulário de quem almeja construir bons relacionamentos. Sem lealdade não há relacionamento que sobreviva, seja no campo familiar, eclesiástico, acadêmico, profissional, enfim. O antônimo de uma das acepções de lealdade é hipocrisia, palavra muito conhecida por ter caracterizado, no passado, os ¿arquiinimigos¿ de Jesus, os fariseus. Para ilustrá-la, Jesus usou a figura de um túmulo que, por dentro, continha material desagradável, mas, por fora, era bem cuidado e, portanto, belo. Lealdade, portanto, tem a ver com integridade. O que sou por dentro não se choca com o que sou por fora. O que digo não contradiz o que faço. O sim é sim, o não é não, pois o que passa disso, diria Jesus, é de procedência maligna, isto é, prejudica a saúde. Um amigo meu explicava um aspecto antropológico ligado aos tempos da escravidão. Segundo ele, os escravos nem sempre concordavam com seus proprietários, em relação às ordens dadas. Porém, como não se sentiam com poder para confrontá-los, na frente diziam sim, porém, na hora da execução, ou faziam com extrema má vontade ou, simplesmente, executavam errado. Segundo ele, ainda, isso explicaria porque muitos de nós brasileiros, influenciados pela cultura dos escravos, muita vez dizemos sim, quando gostaríamos de dizer não e fazemos ¿não¿, quando deveríamos fazer ¿sim¿, gerando conflitos ou dificultando o progresso das atividades previstas. Ser leal, portanto, não significa baixar a cabeça, concordando com tudo que o outro diz, mas, como prova de integridade pessoal e respeito ao semelhante, dizer e fazer o que precisa ser dito e feito, na presença ou na ausência.
postado por: Comments: Terça-feira, Maio 15, 2007 Impontualidade como estilo de vida Edvar Gimenes de Oliveira Quem nunca chegou atrasado em um compromisso? Seja por acidente, engarrafamento ou simples descuido, todos já passamos pela experiência de atrasar e, certamente, passaremos outras vezes. A questão não é, eventualmente, atrasarmos. Problema é quando a impontualidade é estilo de vida, traço de personalidade. Há pessoas que se atrasam, propositalmente, a eventos onde se reúnem multidões, pela simples oportunidade de serem notadas quando adentrarem ao local. Outras, como no caso dos casamentos, apenas por tradição ou por considerarem ¿chique¿. ¿Chique¿, então, seria deixar pessoas plantadas, muita vez mais de uma hora, como punição por terem se esforçado para chegar no horário marcado, em respeito ao convite feito. E a justificativa do atraso por traço cultural? Não existe nada mais obscuro, intelectualmente, do que justificar uma realidade nociva em bases culturais. Reconhecer o dado cultural é importante, mas se tal dado apresenta prejuízos ao indivíduo ou à comunidade, precisamos contestá-lo e modificá-lo. É tão verdadeiro que somos fruto de uma cultura, quanto que quem faz a cultura somos nós. Assim, se uma prática cultural é nociva, nós, como produtores e veículos dela, somos responsáveis por seus males. Impontualidade, como estilo de vida, é sinal de desrespeito não só para com as pessoas com as quais nos comprometemos, mas também para com a nossa própria pessoa. Se este é o seu caso, comece a se planejar para chegar dez minutos antes, aos compromissos. Você verá que em nada se prejudicará e, o que é bom, eliminará o desconforto daqueles que, em respeito à sua pessoa, cumpriram o acertado.
postado por: Comments: Sexta-feira, Fevereiro 23, 2007 Violência infanto-juvenil Edvar Gimenes de Oliveira E-mail: egobrasil@hotmail.com Depois que a morte de João Hélio Fernandes Vieites, 6 anos, chocou o Brasil, a maior parte dos discursos de dirigentes que ouço tem girado em torno da mudança na legislação, visando penalizar menores com mais rigor. De duas uma: ou eles não entendem nada de violência ou subestimam nossa capacidade de pensar. Sabe qual será o efeito do aprofundamento do rigor das leis sobre a criminalidade infanto-juvenil? Nenhum. Isto porque, é óbvio, nenhum adolescente, na hora de decidir envolver-se com um crime, pergunta primeiro qual seria a penalidade. Será que imaginamos que os adolescentes são tão bem informados em termos legais quanto ¿nós¿?. Se nossos legisladores, responsáveis pela criação das leis, estão constantemente sendo acusados de crimes, será que crianças, analfabetas em sua maioria, podem sentir-se inibidas pelo rigor de leis que desconhecem? Tais adolescentes, em geral, quando sabem ler não são capazes de interpretar; não lêem revistas ou jornais, nem assistem programas jornalísticos. São crianças, em sua maioria, cujos pais trabalham o dia todo para ganhar mísero salário e dispõem de pouco tempo para acompanhar suas vidas. Elas não têm acesso aos bens de consumo expostos nas vitrines das lojas ou através da mídia, nem têm perspectiva de futuro profissional. O que se pode esperar de adolescentes nesta condição? Que tenham valores éticos fortes? Que saibam o que significa respeito mútuo? Que saibam o que significa respeito à propriedade alheia? Que sejam capazes de desenvolver empatia e, por sentir a dor alheia, pensem duas vezes antes de ferir seu próximo? Tenho a impressão de que os que influenciam ou fazem as leis pensam que tais crianças se movem em torno do Congresso Nacional. Não, senhores! Elas, em sua maioria, não têm escolas decentes, nem casas, estrutura sanitária, transporte, lazer ou alimentação adequados. Se nem sabem o nome do prefeito da cidade ou do presidente do país, muito menos se lembrarão de penalidades, quando envolvidas na possibilidade de um crime. Portanto, não é de leis mais rígidas que elas precisam. Elas precisam de algo simples, que todos sabemos, mas não tem sido o foco de nossas prioridades. Sim, pois a visão que temos, do lado de cá, é que a prioridade de parcela decisiva dos dirigentes políticos é com interesses particulares ou corporativos. Parece-nos que são poucos aqueles realmente interessados em focar a educação, habitação, transporte, alimentação ou saúde da população brasileira. A impressão que temos é que, comparando o Brasil a uma panela de pressão, a única coisa que se faz é, vez por outra, levantar o pino da tampa, a fim de evitar uma explosão. Mudar a legislação sem mudança na mentalidade de nossas lideranças, no sentido de rever os valores e prioridades que regem o país, é totalmente ineficaz. Funciona como catarse ou ¿me engana que eu gosto!¿. Nossas crianças não precisam de leis mais rigorosas. Precisam de mais recursos canalizados para suprir necessidades fundamentais de suas famílias; de medidas que ofereçam alternativas para não se envolverem com atividades criminosas; de leis que penalizem dirigentes que não cumpram orçamentos, seja por retenção ou desvio de verbas; de medidas que as protejam do crime e não que as encarcerem por mais tempo em condições penitenciárias animalescas.
postado por: Comments: Sexta-feira, Fevereiro 16, 2007 As pedras da vergonha Edvar Gimenes de Oliveira egobrasil@hotmail.com Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas. Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra Tinha uma pedra no meio do caminho No meio do caminho tinha uma pedra. (Carlos Drumond de Andrade) Todos nós temos pedras no caminho da nossa história. Recordo-me dos pedregulhos utilizados para caçar passarinhos, com estilingue, nos arredores de Garça. De tão arredondados, pareciam ter sido feitos sob encomenda. Lembro-me, também, daquela que quase me deixou cego. Depois da aula, na terceira série, resolvi assistir uma briga de dois colegas. Eis que, de repente, um deles atira uma pedra e, em meio a uma multidão de expectadores, ela acerta meu rosto, a um centímetro do olho esquerdo. Dentre as pedras inesquecíveis estão aquelas que arrancaram uma unha do pé ou a pele do dedo, ao jogar descalço, com bola de meia, uma pelada de futebol. Perdi as contas de quantas foram! Quem nunca caiu por tropeçar numa pedra, especialmente nos tempos em que ruas pavimentadas eram exceções, locomover-se de carro, privilégio de poucos e iluminação pública, precária? Apesar das dores de todas essas pedras, nenhuma suscita tristeza quando lembrada. As que suscitam dor são as que machucaram a alma. São as que provocaram vergonha. Sim, as pedras da vergonha! Quem nunca tropeçou e sentiu-se envergonhado, que atire a primeira pedra! As pedras da vergonha ferem com profundidade, mas parece que o sangue sai sem querer sair e a dor vai passando como se nunca quisesse passar. Passam-se horas, dias, semanas, meses e anos, mas o líquido insiste em continuar jorrando. Algumas delas nos fazem cambalear; outras, cair. E, como que com um poder sobrenatural, elas insistem em nos dizer que não seremos capazes de recuperar o equilíbrio e continuar no caminho da vida. Caídos, desejamos a morte. Tais pedras não aparecem somente dispostas aleatoriamente nos caminhos pelos quais trilhamos. Surgem, também, do arremesso daqueles que, insatisfeitos com nossas conquistas, decidem dificultar nossa trajetória. Ou ainda, dos que, por errarem seus alvos pessoais, nos atingem. Nesse caso, não era a pedra que estava em nosso caminho, mas nós, no caminho da pedra, como no caso da pedrada que levei no rosto. Pedrada no rosto. Sim, as pedras da vergonha atingem nosso rosto. Nosso semblante se desfigura, nossos olhos se tornam opacos e a visão quase se apaga. ¿Uns encurvam-se e caem...¿. Caídos, resta fazer uma escolha entre permanecer no pó ou levantar-se, sacudir a poeira e dar volta por cima. Decidir entre permanecer estendido no chão, lamentando a dor ou recorrer àquele que sempre nos ama, estando caído ou em pé, envergonhado ou desinibido, inocente ou culpado. No chão, portanto, a escolha é entre olhar para os que riem da nossa queda e continuarmos estendidos ou para aquele que sempre nos estende a mão para nos levantar. ¿Uns confiam em carros e outros em cavalos, mas nós faremos menção do nome do Senhor nosso Deus. Uns encurvam-se e caem, mas nós nos erguemos e ficamos de pé.¿ (Salmos 20.7-8)
postado por: Comments: Sábado, Janeiro 20, 2007 Infidelidade Conjugal Edvar Gimenes de Oliveira, E-mail: egobrasil@hotmail.com Infidelidade Conjugal é importante tema no campo do relacionamento humano. Ela afeta as dimensões emocional e espiritual do indivíduo, desestabiliza a família, afeta a convivência social, prejudica o desempenho profissional e pode até culminar em criminalidade. Em algumas abordagens jornalísticas o assunto é tratado de forma jocosa ou simplesmente como algo corriqueiro que não merece maiores preocupações. Tais abordagens passam a impressão de que (in) experiências particulares ou desejos latentes dos escritores prevalecem sobre a análise crítica e norteadora. O princípio da fidelidade foi construído culturalmente ao longo da história, com base em experiências e suas conseqüências nos grupos sociais. Sistematizado detalhadamente, geralmente através de uma tradição religiosa, é repassado de forma oral ou escrita, através dos que dominam o universo religioso. Porém, a cultura do povo e as idiossincrasias individuais determinam maior ou menor submissão ao princípio. Os cristãos que crêem na autoridade normativa do Segundo Testamento (coleção de textos canonizados pela Igreja Católica, dentre os diversos produzidos pelos primeiros seguidores de Jesus, visando nortear posicionamentos ético-doutrinários da igreja) são mais ou menos radicais em relação ao assunto, de acordo com a formação acadêmica ou estrutura de personalidade de seus líderes. Teorias ou posicionamentos políticos à parte, todos concordam, porém, com os danos provocados pela infidelidade. Independente, portanto, das questões teológicas, filosóficas, antropológicas, sociológicas, psicológicas, biológicas, enfim, que envolvem o assunto, é inegável a dor que caracteriza a vida dos envolvidos na infidelidade conjugal. Se as pessoas tivessem noção prévia das conseqüências dolorosas da infidelidade, provavelmente pensariam melhor antes de, irracionalmente, darem vazão aos sentimentos motivadores. Digo irracionalmente porque, via-de-regra, a infidelidade é impulsionada por uma força interior aparentemente incontrolável, capaz de fazer com que o candidato a infiel ou não enxergue as conseqüências ou, simplesmente decida arriscar-se a pagar o preço das possíveis conseqüências. Sem ajuda externa, de pessoa qualificada técnica, emocional e espiritualmente, dificilmente se consegue alterar o propósito do coração. O triste é que, consumado o objetivo, verifica-se, primeiro, que um ato é insuficiente para satisfazer o desejo e, mais tarde, que todo o prazer alcançado é infinitamente menor do que os efeitos colaterais dolorosos que produz. Diante dos sentimentos destrutivos que assediam o coração, alguns tentam abafá-los envolvendo-se em ativismo doentio, excesso de álcool ou uso de drogas, legalizadas ou não. O corpo fragiliza-se e enfermidades aparecem, como no caso de Davi (Salmo 32.2). A dor é tal, pelo menos nos mais sensíveis a valores espirituais, que o fantasma da morte ronda em forma de desejo. Somente a graça divina, manifesta através de pessoa qualificada pode restaurar o equilíbrio na alma. Quem se envolve em infidelidade é incapaz de mensurar as conseqüências na vida do cônjuge. Este, independente das explicações teóricas, parece ser o que sofre mais. O fato de sentir-se vítima de traição, a perda da confiança em alguém que faz parte de seus pilares de sustentação emocional, a tristeza de saber que o afeto antes tido como somente seu ter sido canalizado para outrem, os efeitos humilhantes da repercussão social, a tomada de consciência da falta de controle na situação em que o fato se deu, a própria indignação da cruel invasão de terceiros na intimidade daquele que lhe era sagrado, enfim, podem culminar em reações drásticas, irracionais e irreversíveis. O pensamento dominante é que, eliminando-se os traidores, elimina-se a dor. Crimes passionais, portanto, não ocorrem por amor ou ódio, mas pelo desejo de eliminar a própria dor. O resultado final de um ato de infidelidade é imprevisível. Pode haver restauração da relação, uma simples separação ou até, em casos extremos, ações criminosas. Por isso, é essencial que se busque a imediata restauração do equilíbrio emocional, seguida de reflexão sobre possíveis causas, sob monitoramento de pessoa qualificada. A restauração da relação é possível, conquanto longa e dolorosa. A transparência e a verdade como meios de resgate da confiança, são essenciais. A abertura para reconhecimento de necessidades não supridas na relação, surgidas antes ou durante o casamento, bem como de possíveis erros cometidos por ambos nos processos que antecederam ao fato, são indispensáveis. A busca de ajuda espiritual, visando restaurar a graça, a misericórdia, o respeito, o afeto, o amor mútuo, enfim, são fundamentais. Somente quando nos abrimos, ainda que através de uma pequena brecha, para o agir divino, algo novo e bom pode acontecer.
postado por: Comments: Domingo, Dezembro 24, 2006 Paulo, machista e conservador? Edvar Gimenes de Oliveira, egobrasil@hotmail.com Paulo tem sido identificado por muitos, como um machista conservador. Essa acusação se deve ao fato de afirmar que as mulheres deveriam ser submissas a seus maridos e que deveriam permanecer em silêncio na igreja. Porém, uma análise do contexto sócio-cultural em que ele estava inserido e do papel da mulher naquela sociedade nos surpreende, tornando a acusação pouco justa. Em ¿Jesus e as Estruturas de seu tempo¿ (E. Morin, Edições Paulinas, 1984) vemos que as mulheres deveriam obedecer aos homens porque a crença era de que Deus deu poder a eles. Geralmente elas eram associadas aos escravos pagãos e crianças. As filhas podiam ser vendidas, como se fazia com escravos. Aos homens era recomendado que orassem agradecendo a Deus por não os terem sido criados como mulheres. Em termos de educação, a lei não lhes era ensinada, pois isso seria o mesmo que ensinar-lhes a devassidão. Alguns mestres julgavam preferível queimar a Torá (lei) a ensiná-la à mulher. Nas sinagogas elas ocupavam lugares separados dos homens por uma barreira. Em nenhuma hipótese elas tinham acesso aos lugares reservados aos escribas. No casamento, ainda que não fossem escravas do marido, elas eram posse sua. Cabia a elas não somente prepararem a alimentação dele, mas também lavar suas mãos, pés e rosto, coisas não exigidas de escravos judeus. Em termos de divórcio o direito ao repúdio era quase que exclusivamente do marido. O testemunho de uma mulher não era válido. As casadas não podiam ser olhadas e nem sequer cumprimentadas pelos homens. Elas não participavam da vida pública e, na cidade ou diante de pessoas importantes, somente poderiam aparecer com véu na cabeça. Em ¿Vida Cotidiana nos Tempos Bíblicos¿ (Merryl C. Tenney, J.I. Packer e William White Jr., Editora Vida, 1984) os autores descrevem a condição da mulher de maneira romântica. Eles não se manifestam sobre a justiça das relações homem-mulher. Pelo contrário, enaltecem as mulheres como virtuosas por agirem como agiam em contexto tão adverso. A postura desses autores é de simplesmente reproduzir acriticamente o que os registros bíblicos apontam, sem nenhuma reflexão sócio-política. Ao tratar do papel da mulher de forma enaltecedora, seus escritos trazem imbutidos uma ideologia que legitima e alimenta relacionamentos injustos. Suas descrições, entretanto, confirmam a condição inferior das mulheres, mesmo que não tenha sido este o propósito dos escritores. Agora me responda: se, num contexto como o descrito, em que mulher, escravo e objeto quase se confundem, alguém aparece ensinando que elas deveriam ser amadas, essa postura seria machista e conservadora? Claro que não! Creio que as palavras de Paulo foram as ¿palavras possíveis¿ para seu tempo e espaço, uma vez que, enquanto o novo ¿ a restauração da graça - estava sendo estabelecido, os efeitos da ruptura com o velho ¿ o legalismo ¿ precisava ser politicamente administrado. Desafiar homens a amarem ¿ e não somente usarem - suas mulheres significava defender uma nova forma de relacionamento. Podia parecer pouco explícito, acanhado até, mas no desenrolar do processo os efeitos seriam revolucionários. Imagino os conflitos interiores de Paulo, na formulação, apresentação e defesa desse novo comportamento. Compreendendo as perdas que a mudança representaria para os homens, entendo porque ele parece dar dois passos à frente e um para trás. Entendo, também, porque os homens-interpretes de hoje se apegam mais aos ¿passos para trás¿ do que aos ¿para frente¿ que Paulo deu. Dois problemas posteriores a Paulo determinam a lentidão nos avanços das relações sociais homem-mulher. O primeiro, de natureza teológica, tem a ver com a canonização e absolutização dos escritos de Paulo. No momento em que a igreja decidiu fechar o Cânon, os avanços nas mudanças foram dificultados pois, aos teólogos, restaram duas alternativas: ou rompiam com a decisão da Igreja se expondo ao risco de serem marginalizados pejorativamente como modernistas, liberais, ou faziam marabalismos linguístico-teológicos com tais textos visando encontrar saídas que desatassem o nó. A maioria absoluta, compreensivamente, continua escolhendo a segunda opção. O segundo problema é de natureza política. Na agenda de discussões político-doutrinárias da igreja, o tema submissão da mulher aos homens ocupou muito mais espaço nos debates do que o tema amor dos homens por elas. Essa ênfase na submissão e não no amor, retrata a resistência dos homens em aceitar as perdas políticas resultantes da proposta de Paulo. Vale salientar que quem sempre definiu a agenda de temas a serem debatidos na igreja foram os homens. Quem sempre interpretou e escreveu sobre textos bíblicos foram os homens. Essa condição fez com que eles não somente pudessem escolher o que deveria ser discutido ou não, mas também possibilitou que o que eles pensavam se estabelecesse como verdade. Quantos livros de hermenêutica escritos por mulheres você conhece? Como elas poderiam fazer isso se não podiam, por decisão política dos homens, sequer se matricular numa escola teológica para estudar técnicas de interpretação, linguas originas e temas afins? Como as mulheres poderiam difundir o que pensavam ou sentiam se os púlpitos, por decisão política dos homens, eram espaços masculinos? Estudando a natureza das relações sociais e como os sistemas são montados, entendemos porque tantas rupturas surgem no seio eclesiástico. É que, quando pessoas que têm uma visão diferente da dominante, perdem a esperança de ver avanços acontecerem, resta-lhes a alternativa do rompimento. Nas rupturas, brechas se abrem e raios de sol penetram nas estruturas escuras e mofadas que sufocam a beleza da vida. Paulo não foi tão conservador e machista como é acusado. Nós é que somos ao nos calarmos diante de pressupostos teológicos e agendas de debates que nos favorecem e de relações humanas tão injustas.
postado por: Comments: Sexta-feira, Dezembro 22, 2006 O caso Ted Haggard e a lei antidiscriminação por orientação sexual Edvar Gimenes de Oliveira egobrasil@hotmail.com Um dia desses resolvi ler um pouco mais sobre Ted Haggard, listado em 2005, pela Time Magazine, como um dos 25 evangélicos mais influentes dos Estados Unidos. Pastor da New Life Church in Colorado Springs, Colorado e Presidente da National Association of Evangelicals, Ted, como é conhecido, foi importante cabo eleitoral de Bush nas eleições de 2004, mas ganhou os noticiários do mundo por sua vida dupla. Enquanto dirigia uma igreja com 14 000 membros, presidia uma organização que congrega 30 milhões de evangélicos nos Estados Unidos e pregava de forma veemente, em sua igreja e na televisão, contra o casamento homossexual, ele mantinha um caso com um homem há três anos. Quando o prostituto descobriu quem ele era e como pregava contra o casamento homossexual, resolveu denunciar. O escândalo foi tal que ele precisou deixar o pastorado e a presidência da Associação Nacional de Evangélicos. Por ter visto diversos casos semelhantes, sempre que encontro algum pastor combatendo com muita ferocidade determinada conduta, especialmente no campo da sexualidade, começo a supor que há uma razoável probabilidade dele estar lutando contra seus próprios impulsos. Todos nós, inclusive pastores, temos nossos pontos fracos. Isso não é problema. O problema é quando assumimos uma postura de seres acima do bem e do mal, criando uma imagem de poderosos semi-deuses. Todos nós, inclusive pastores, temos lutas interiores. Paulo dizia que o bem que queria, não fazia... Porém, significativo número de pastores, prefere passar uma imagem de seres em absoluta harmonia interior. Lamento o ocorrido com Ted. Lamento, principalmente porque, em vez de ser humilde e coerente, usou o discurso fundamentalista como armadura. O fato, porém, é que discurso anti-isso ou anti-aquilo não cura as feridas de nossa alma. A cura começa quando admitimos nossa doença e procuramos ajuda. Bem, Ted está aí pra nos mostrar que precisamos assumir mais nossa humanidade. Não para, simplesmente, nos acomodarmos àquilo que prejudica nossa vida, mas para, humilde e coerentemente, enfrentarmos nossos problemas e, também, sermos mais misericordiosos com as pessoas e seus problemas. Quanto ao Projeto de Lei 5003/2001, em andamento no Congresso Nacional Brasileiro, que transforma em crime a discriminação por orientação sexual, creio que o Brasil precisa desta lei, pois seus benefícios serão maiores do que eventuais prejuízos. Especialmente nós batistas que já experimentamos os efeitos nefastos de leis e políticas discriminatórias, devemos dizer sim a ela. Dizer sim não significa afirmar concordância com a doutrina defendida pelo movimento gay, mas defender uma sociedade em que as pessoas sejam capazes de conviver civilizadamente com pensamentos e condutas diferentes. Veja o caso do fumo. Não somos a favor do seu uso, mas não podemos negar aos fumantes seu direito de fumar. Para combater seus efeitos maléficos, investimos em educação, campanhas de esclarecimento e definimos, legalmente, espaços nos quais as pessoas devem abster-se de usar cigarro. O mesmo deve ocorrer com o exercício da sexualidade, seja ele hétero ou homo, pois, a discriminação, como a história comprova, além de injusta, é ineficaz e geradora de conflitos. Caso a lei seja aprovada, alguns pastores terão que refazer o discurso, mas não serão impedidos de apontar problemas relacionados ao homossexualismo. Apenas precisarão respeitar e ser mais misericordiosos com os homossexuais, como são, por exemplo, com fofoqueiros, mentirosos, hipócritas ou vingativos que também compõem o rol de membros das igrejas. A lei devem ser apoiada, portanto, por incriminar aqueles que discriminam indivíduos com base na orientação sexual e não proibir que estudos e palestras continuem sendo feitos no campo da sexualidade, visando orientar pessoas a cultivarem uma vida saudável.
postado por: Comments: Quinta-feira, Novembro 02, 2006 Casamento: o princípio do prazer Edvar Gimenes de Oliveira, E-mail: egobrasil@hotmail.com Antes de qualquer coisa é preciso que fique claro que ninguém entra num relacionamento visando uma experiência de dor. Na verdade é o prazer, não a dor, que nos atrai ao casamento. Mas não podemos falar de prazer como princípio sem antes declarar que a dor, ou, numa hipótese melhor, experiências desagradáveis, também faz parte do pacote. Assim, aqueles que pretendem se casar e não estão considerando a possibilidade de experiências no mínimo desconfortáveis, precisam rever suas crenças. É que a dor, em maior ou menor grau, sempre aparece como figurante, quando não como personagem principal, em nossa história de amor. O que se pode fazer numa relação é investir no sentido de que os índices de prazer predominem sobre os da dor; é trabalhar para que as experiências prazerosas se mantenham disparadamente à frente dos desconfortos; é evitar que o desprazer cresça a ponto de causar-nos desânimo ou de ativar, em nossas fantasias, o mito da grama mais verde. Se a dor, não o prazer, dominar a relação, tal casamento está fadado à destruição. O prazer não deve ser buscado, num casamento, como um fim em si mesmo. Isso seria hedonismo. Quem se casa pensando somente no prazer não vê o outro como pessoa, mas como máquina lúdica. O outro deve ser alvo do nosso amor, principalmente em situações em que algo em sua vida não seja do nosso agrado. Se assim for, até mesmo em situações desconfortáveis experimentaremos o prazer de estar ao lado, de ajudar a pessoa amada. São múltiplas as possibilidades de prazer no casamento. Para uns ouvir a voz da pessoa amada é extremamente prazeroso; para outros é a beleza vista que faz o coração pulsar de satisfação; para outros ainda, é o compartilhar de idéias, a troca de conhecimentos que faz com que horas de diálogo passem tão rapidamente quanto segundos; para outros são os gestos de gentileza, tais como o puxar de uma cadeira, o abrir de uma porta, o estender da mão, o servir uma refeição, o providenciar uma sandália, uma toalha, enfim... E o toque físico? Quem não se sente bem com um cafuné depois de um dia intenso de trabalho? Com um forte e carinhoso abraço no momento do reencontro? Com aquele beijo na hora da despedida de cada dia? Todos gostamos! Porém, é no contato físico que reside boa parte dos problemas no casamento. A dificuldade que muitos enfrentam no casamento, em relação ao contato físico, tem origem numa deformação educacional a que parcela significativa das pessoas (ou quase todas!) foi submetida, sobretudo sob influência de conceitos religiosos teologicamente mal construídos ou preconceitos morais não reavaliados. Não são poucas as pessoas que, mesmo em nossos dias, mantém uma relação pouco amistosa com o próprio corpo. É acentuado o número de indivíduos que se sentem envergonhados com a reação de seus corpos num momento de carícia. É incrível o número de casais com problemas porque um dos cônjuges se sente culpado diante do prazer sexual ou que não consegue coadunar a fé que professa com o prazer que deseja. Há cônjuges que sofrem calados numa relação sexual ou finge gostar do que está acontecendo simplesmente por acreditar ser vulgar dialogar com o parceiro a respeito das áreas de seu corpo que, sendo tocadas, causa maior ou menor prazer. Nada, porém, é comparável aos conflitos em torno do que seria ou não permitido em termos físicos, no ato sexual. Nesse caso, respeitando os que pensam diferentes em função dos valores culturais e religiosos nos quais cada personalidade se desenvolveu, costumo dizer que, dentro das paredes do quarto do casal tudo é permitido, desde que seja fruto de diálogo honesto e sincero, de respeito mútuo e manifestação de interesse pelo bem estar alheio. Casamento não existe somente para manutenção e reprodução da espécie. É essencial também à manutenção da saúde, do equilíbrio emocional do casal. Por isso, todo esforço deve ser envidado no sentido de que seja uma experiência prazerosa em vez de estressante, desconfortável ou dolorosa.
postado por: Comments: Coração entravado Edvar Gimenes de Oliveira Passamos por situações na vida em que o coração entrava. Há tarefas a serem executadas, prazos a serem cumpridos, mas as pernas se imobilizam, os dedos se enrijecem, o cérebro protesta e conclama a categoria dos neurônios à paralisação geral. Se o senso do dever nos empurra na direção dos compromissos com pessoas e instituições, o do querer se move em sentido contrário. Parafraseando Paulo, a caminhada que preciso, não consigo fazer, mas a parada que não quero, essa sou obrigado a praticar. Nessa situação nossos planos para o amanhã são seqüestrados por nós mesmos e o custo do resgate se torna elevado e aparentemente impagável. Uma nuvem carregada se interpõem entre nós e o logo ali. A linha que separa a miopia da cegueira se torna extremamente tênue. Quando o coração entrava, o corpo fala. A indisposição contagia cada órgão e os músculos da face se recusam a fazer movimentos de riso. As pálpebras se fecham numa tentativa desesperada de abrir as comportas da alma, a fim de que os terrenos agora áridos que margeiam os canais dos bons sentimentos sejam lubrificados e produzam frutos agradáveis. A boca fica amarga, a saliva se recusa a cumprir suas funções e a língua descontrolada tende a exalar veneno capaz de matar não somente qualquer sinal de vida ao seu redor, mas também, como querendo libertar-se da dor, o próprio corpo de quem a abriga. As cordas vocais se negam a vibrar. Os sons se tornam fracos, roucos, dissonantes. A harmonia desaparece e o que pode ser ouvido apenas retrata o estado do ser. "Como entoaremos o cântico do Senhor em terra estrangeira?" (Sal. 137.4). Quando o coração entrava, resta-nos buscar consolo numa palavra de Deus. "A minha alma se consome de tristeza; fortalece-me segundo a tua palavra e faze-me ouvir júbilo e alegria, para que se regozijem os ossos que esmagaste." (Sal.119.28; 51.8)
postado por: Comments: Quarta-feira, Outubro 25, 2006 Lula, sem paixão! Edvar Gimenes de Oliveira Óbvio, qualquer pessoa que, como eu, acompanhou a trajetória de Lula e nele votou em todas as eleições não tem como participar deste pleito com os mesmos sentimentos. Pelo menos no que se refere à ética, seu governo ficou muito distante do apregoado em campanha (ainda que em nada pior do que os anteriores) e isso gerou forte decepção. Não me decepcionei com as decisões econômicas adotadas por ele. Ele foi eleito para governar subordinado às leis estabelecidas e não como ditador. Tais leis retratam uma história e mudá-las dependeria de consenso social e congressual. Além disso, qual seria a alternativa de modelo que pudesse ser implementado da noite pro dia? Se essa alternativa existisse, ela estaria sendo amplamente discutida. Entretanto, nada do que leio ou escuto sobre o assunto aponta para existência dela! O que existe é uma caminhada determinada em direção a valores como justiça, paz, solidariedade, segurança... Em direção a esses valores, com determinação, vontade política, inteligência, vai se construindo a vida em sociedade! Não existe modelo pronto! A diferença que pode ser feita da noite pro dia é a das prioridades daqueles que detém o poder de decisão. Aqui reside minha razão para votar em Lula, de novo: suas prioridades são muito mais visivelmente compatíveis com as necessidades mais gritantes da sociedade do que as do psdb/pfl. Decidi votar em Lula, de novo, no dia 26 de setembro. Até então cogitava as alternativas Cristovan e Heloisa. Porém, ao avaliar as pesquisas e perceber que nenhuma dessas opções poderia mudar seus índices em 3 dias e, considerando ainda que, deixando de votar em Lula provocaria um segundo turno com uma imprensa furiosa contra Lula, decidi. Fiz um balanço racional comparativo entre o governo PT e o PSDB/PFL e não foi difícil concluir a superioridade do governo Lula em todos os quesitos. Então, sem a mesma paixão de eleições anteriores, mas consciente do meu papel de cidadão, passei a defender o voto em Lula como sendo o melhor (ou menos ruim, como queiram) para o país! Se Lula conseguir repetir a mesma performance, não dificultando a implementação de CPI¿s, a ação da Polícia Federal e do Ministério Publico, creio que teremos um bom período de governo. Além disso, um PT enfraquecido na oposição de um eventual governo PSDB/PFL/Mídia seria muito pior para o Brasil do que um PT reeleito com a mídia toda na oposição e um PSDB/PFL ansiosos para voltar ao poder. Por isso, no dia 29 de outubro, sem a mesma paixão, é verdade, votarei em Lula novamente!
postado por: Comments: Sábado, Outubro 21, 2006 Casamento: O princípio da cumplicidade Edvar Gimenes de Oliveira, "Eu quero uma mulher que seja diferente de todas que eu já tive, de todas tão iguais; que seja minha amiga, amante, confidente, a cúmplice de tudo que eu fizer a mais". (A cúmplice, de Juca Chaves) Cumplicidade é uma palavra do mundo criminal. Refere-se à participação num crime, seja de forma direta, seja como testemunha que silencia visando não prejudicar o criminoso. Duas outras importantes palavras estão associadas a ela: conivente e cooperante. A primeira é mais popularmente utilizada num sentido reprovável e significa fingir não ver o mal que o outro pratica. A segunda, ao contrário, é mais usada positivamente e tem a ver com colaboração num projeto ou processo do qual mais de uma pessoa estão envolvidas. Aplicada ao casamento, ela pode tornar-se fonte de sucesso na vida a dois. Entretanto, para que isso ocorra é fundamental que se tenha profunda clareza de seu significado. Cada cônjuge traz consigo uma bagagem cultural que inclui crenças e valores. No dia-a-dia do casamento as situações fazem eclodir diferenças existentes entre os dois. Quando tais diferenças acontecem num momento de diálogo que não envolve decisões, a troca de opiniões pode culminar com mudanças ou manutenção no conteúdo do pensamento. O problema é quando uma situação concreta exige posicionamento, definição. Tomemos, por exemplo, uma situação em que um filho age de maneira errada. A mãe, com suas crenças e valores, dialoga com o filho mostrando-lhe o que ele fez e compara com o que ele deveria ter feito. O parâmetro que define o certo, no caso, seria o que a mãe crê ser o certo. Portanto, a postura correta do filho seria aquela que está em acordo com o que ela compreende ser o modo correto de agir. Digamos que o pai tenha uma crença diferente da mãe. Como ele deveria agir diante do filho corrigido? Aqui está uma causa comum de conflito no casamento. Se o princípio da cumplicidade for o norte da relação, a divergência seria primeiramente equacionada entre o casal para depois ser comunicada ao filho. Porém, não havendo cumplicidade o pai contraria a mãe perante o filho causando tanto o enfraquecimento da autoridade dela, quanto uma confusão na cabeça da criança. O mesmo problema pode ocorrer perante parentes, amigos, colegas de trabalho ou irmãos na fé. Quando há divergência de atitudes, palavras ou ações, em vez de expor o cônjuge ao descrédito, a cumplicidade se manifesta na ação de procurar-se primeiramente ouvi-lo e, equacionada a diferença, formalizar a posição. Escrever isso é fácil, porém, geralmente a equação de tais diferenças vem carregada de emoção, cegando nossa capacidade de refletir e agir. A postura de corregedor adotada por um dos cônjuges dificulta o desenvolvimento da cumplicidade. Por acreditar que suas crenças e valores são as melhores ou mais certas, o corregedor sempre tenta corrigir ou outro em caso de divergência. A ausência de diálogo visando afinar posturas e de humildade para rever valores anula a cumplicidade. A expressão "uma só carne" como algo que acontece no ato da legalização da relação ou da consumação sexual é um mito. Seremos eternamente unidades autônomas. É um equívoco acreditar que no ato conjugal ocorre uma fundição de dois seres, transformando-os em um só. As diferenças sempre existirão e eclodirão na caminhada. Nesse caso, a cumplicidade reconhece a individualidade do outro e a necessidade de abertura eterna para o diálogo, visando produzir harmonia. Não há harmonia nem cumplicidade, mas castração, quando, em vez de diálogo, um impõe e o outro silencia. Cumplicidade não significa eliminar a possibilidade de cada um manter suas particularidades, nem nos obriga a sermos um livro aberto. A transparência é saudável na relação, mas o grau e o momento de sua aplicação deve ser bem calculado, a fim de não transformá-la numa arma contra o casamento. Se Paulo defende que a verdade deve ser dita em amor (Ef. 4.15), isso significa que há outras motivações, inclusive maléficas, para dizê-la. Assim, compete a nós administrarmos a motivação, o tempo e a forma de torná-la pública. O mesmo se dá com a cumplicidade. Seu desenvolvimento deve ser movido pelo respeito mútuo, pela confiança e amor. Sem isso, em vez de arma a favor do fortalecimento, ela "fragiliza" e destrói a relação.
postado por: Comments: Quarta-feira, Outubro 11, 2006 15 de Outubro - Dia do Professor Edvar Gimenes de Oliveira Se há uma categoria profissional cujo dia de comemoração não pode passar despercebido, esta é a dos professores. Isso porque todos os profissionais, qualquer que seja a área de atuação, precisaram de um professor para chegar aonde chegaram. Professor é uma pessoa que consegue enxergar com mais clareza e entender com mais profundidade a área a que se dedica. Por ser o altruísmo uma das marcas do seu caráter, ele tem prazer em dividir os conhecimentos construídos com todos que se interessam pelo saber. Professor geralmente é um sonhador. Ao olhar para o aluno, ele não vê o que ele é, mas o que pode vir a ser. É em torno do ¿vir-a-ser¿ que desenvolve pacientemente seu trabalho. Não é um bom professor, aquele que usa seus conhecimentos para oprimir ou explorar seus semelhantes. Um bom professor jamais se alegra quando seus alunos são mal sucedidos numa avaliação. É que, no resultado ¿ bom ou mau - alcançado pelo aluno, pode se ver, também, o quão competente um professor é. Um bom professor é aquele que se entende como facilitador, como cúmplice da libertação de seus alunos das garras escravagistas da ignorância. Por isso ele não se alegra com alunos que apenas reproduzem seu modo de ver o mundo. Antes, quer vê-los capaz de pensar, elaborar e sistematizar idéias e ser criativos na solução de problemas. Não creio que a falta de educação seja o problema central de nossa sociedade. Há outros elementos que contribuem para o estado social em que nos encontramos. Porém, não tenho dúvidas quanto ao papel preponderante do professor e da escola no processo de construção de uma sociedade mais justa e amorosa. Por isso lamento o descaso de nossos dirigentes para os mais importantes profissionais da nação, sem os quais nenhuma outra profissão subsistiria.
postado por: Comments: Terça-feira, Outubro 03, 2006 Casamento: o princípio da humildade Edvar Gimenes de Oliveira Eis outro princípio essencial à boa convivência conjugal. Se recebesse a devida atenção em nossas vidas, o tema submissão unilateral da mulher desapareceria dos debates. Homens humildes não defenderiam com unhas e dentes a manutenção da submissão de suas esposas. Esposas humildes de homens humildes, não necessitariam clamar por justiça na relação por se sentirem subjugadas. Mas não somente nisso o casamento seria beneficiado. Dizem que humildade vem do Latim "humus" cujo significado seria "filhos da terra". A narrativa poética do Gênesis declara: "E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra...". (Gen. 2.7). O pregador declara: "...todos são pó, e todos ao pó tornarão" (Ecl. 3.20). Ser humilde, então, seria encarar a mais pura realidade: somos pó. Em outras palavras, podemos dizer que ser humilde é ter os pés no chão, encarando a realidade tal como ela é, em vez de viver num mundo de mentiras e fantasias. Ser humilde é ter noção exata do que somos, nem mais, nem menos. Isso aplicado ao casamento faz com que compreendamos melhor possíveis fraquezas da pessoa que está ao nosso lado pela consciência que temos de que também estamos sujeitos a elas. "Aquele, pois, que pensa estar em pé, olhe não caia".(I cor. 10.12). Também não exigiríamos do cônjuge aquilo que não gostaríamos que fosse exigido de nós. A vida financeira do casal, uma das causas principais de conflitos na relação, tem outros contornos quando administrada com humildade. É que a noção exata das possibilidades evita que gastemos além do que a renda familiar permite. Infelizmente há casais que gastam no que desejam ou naquilo que acreditam que merecem e não no que seu rendimento permite. Depois, quando a relação receita-despesa começa a apresentar-se deficitária e as dívidas a crescerem como bola de neve, a relação entra em crise e vão-se a alegria e a paz. É diferente o diálogo do casal que cultiva a humildade. Quando acreditamos que não somente nós temos coisas importantes, certas e boas a dizer; que não somos detentores da verdade; que também o outro tem percepções da realidade e, portanto, o que dizer, desenvolvemos muito mais nossa capacidade de ouvir. "Todo homem (e mulher também, digo eu!) seja pronto para ouvir, tardio para falar..." (Tg. 1.19). Não é a incapacidade de ouvir, um dos problemas mais sérios de conflitos conjugais? Com humildade o orgulho não tem espaço. A capacidade de reconhecer os próprios erros é maximizada, a de perdoar multiplicada e a disposição para servir, sem ser servil, torna-se marca da relação. Quando o centro da questão é o desejo de servir mais e melhor e a não a disputa sobre quem deve sujeitar-se mais a quem, evidenciamos que a graça de Jesus - não a cultura machista e o legalismo judaico de milhares de anos atrás - está, de fato, introjetada em nós. Sem orgulho fica mais fácil admitir e procurar a ajuda de terceiros quando se percebe que os dois não estão conseguindo equacionar diferenças de modo saudável. Muitos casais sofreriam menos se os maridos aceitassem de pronto a sugestão das esposas de procurar ajuda externa. Perseguir a humildade, não faz parte dos valores da nossa sociedade. Há, inclusive, uma confusão sobre seu significado. Confunde-se humildade com pobreza material ou ausência de prestígio social e poder político. Além disso, há um fator de natureza emocional que pressiona o orgulho pra cima. É que, geralmente, na história de um adulto orgulhoso, prepotente, quase sempre há uma criança que foi vítima de forte sentimento de humilhação. Enfatizemos a importância da humildade, semeando-a e cultivando o desejo de vê-la crescer em nós. Fazendo isso com carinho, oração e até, se necessário for, com ajuda terapêutica, nos beneficiaremos do ensino de Jesus: "Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas". (Mt. 11.29). E para o casamento também!
postado por: Comments: Terça-feira, Setembro 26, 2006 Casamento: o princípio da negociação Edvar Gimenes de Oliveira E-mail: egobrasil@hotmail.com O princípio da negociação no casamento deveria ser encarado como caminho óbvio, natural numa relação conjugal. Porém, o tradicional discurso masculino, introjetado culturalmente inclusive em mentes femininas, aponta a submissão unilateral da mulher como elemento necessário à preservação da família. Para isso versículos são isolados de seus contextos e olhos são fechados para fartos indicadores neotestamentários de igualdade na relação. A ideologia política do tal discurso é que, num processo de divergência decisória na vida conjugal, a posição do marido deve prevalecer, independente da razoabilidade dos argumentos da esposa, pelo simples fato de que haveria uma recomendação ¿bíblica¿ para que a esposa submeta-se unilateralmente ao marido. Presenciei um exemplo contundente desse discurso contrário ao princípio da negociação. Participando como ouvinte de um encontro de casais num hotel no agreste pernambucano, engoli a seco, para não gerar um mal estar maior, a afirmação da esposa do preletor ¿ de São Paulo, com sobrenome europeu, pra que fique claro que machismo não é privilégio nordestino - que orientava: se seu marido decidir vender aquecedor de ar em Manaus, vá com ele sem discutir. Com um pouco mais de aplicação e autonomia no estudo da Bíblia ela poderia orientar os homens presentes a serem também humildes e a darem mais ouvido às suas esposas, pois elas, sendo também portadoras de massa cinzenta de boa qualidade e tão interessadas no bem estar da família quanto eles, merecem ser ouvidas com muito mais respeito, especialmente quando a decisão pode afetar negativamente a vida de todos do lar. O problema é que, justamente pela cultura machista na qual somos criados, a maior parte de nós homens, dentre os quais me incluo, demora para aprender esta verdade ou morrem (às vezes matando antes a alegria do casamento) sem aplicá-la. E pior: a igreja, que deveria ser agente de libertação de valores preconceituosos, acaba ela mesma tornando-se instrumento de alimentação da escravidão ao estimular a submissão unilateral como modelo ideal de ¿Deus¿ para a vida conjugal. Ouvi o caso de certo rapaz evangélico, pasmem, que desrespeitava sua mãe e justificava-se ¿em bases bíblicas¿, declarando que homem não deve sujeitar-se à liderança de mulher, portanto, nem mesmo à de sua mãe. O princípio da negociação faz parte de uma liderança familiar na qual cada cônjuge deve ser humilde pra reconhecer pontos fortes e fracos um do outro e permitir que cada um exerça a liderança nas áreas ou situações em que está mais bem preparado. A negociação deve estar presente não somente quando o assunto é relação sexual (¿Não se recusem um ao outro, exceto por mútuo consentimento...¿ (I cor. 7.5)), mas em todas as áreas de relacionamentos amorosos, fundamentados no respeito e sujeição mútuos (Ef. 5.21). Cultivemos e fortaleçamos o principio da negociação no casamento. Ele é a semente que evita que, num processo mais avançado de dominação, as mulheres sejam tratadas como na sociedade afegã. Lá, ¿primeiro elas pertencem ao pai, depois são vendidas ao futuro marido¿ e se os talibãs permanecessem no poder ¿mais um pouco... estariam carregando etiquetas com a indicação de quanto valem: uma jóia, uma vaca ou uma quantia em dinheiro¿. (Asne Seierstad, Revista Veja, Ed. 1973, 13.09.2006). Tudo isso solidamente fundamentado em estruturas sagradas, digo, escrituras sagradas.
postado por: Comments: Sexta-feira, Setembro 15, 2006 Casamento: o princípio da igualdade Edvar Gimenes de Oliveira egobrasil@hotmail.com Ouvi de uma senhora que foi à delegacia da Mulher no Recife denunciar seu marido por violência. Ambos - esposa e esposo - foram primeiramente atendidos pela assistente social. A seguir, enquanto a esposa era atendida pela delegada, a assistente social perguntou ao marido sobre os motivos da agressão. A justificativa foi que, sendo ambos evangélicos, ele não admitia que ela não se sujeitasse a ele, como mandava a Bíblia. O princípio da igualdade de direitos e deveres na relação marido-mulher é tão claro nas páginas do Novo Testamento que apenas mencionarei cada um deles, sem comentários, exceto o último - igualdade na sujeição mútua -, uma vez que é o único citado pelos que defendem a heresia da submissão da mulher no casamento. I. Igualdade na condição de filhos de Deus "Todos vocês são filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus, pois os que em Cristo foram batizados, de Cristo se revestiram. Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus" (Gal. 3.26-28 NVI); II. Igualdade na quantidade de parceiros "...por causa da imoralidade, cada um deve ter sua própria esposa, e cada mulher seu próprio esposo" (I cor. 7.2 NVI); III. Igualdade na autoridade sobre o corpo "A mulher não tem autoridade sobre o seu próprio corpo, mas sim o marido. Da mesma forma, o marido não tem autoridade sobre o seu próprio corpo, mas sim a mulher" (I cor. 7.4-5 NVI); IV. Igualdade no cumprimento dos deveres conjugais "O marido deve cumprir os seus deveres conjugais para com sua mulher, e da mesma forma a mulher para com o seu marido" (I cor. 7.3 NVI); V. Igualdade na interdependência "No senhor, todavia, a mulher não é independente do homem, nem o homem independente da mulher. Pois assim como a mulher proveio do homem, também o homem nasce da mulher. Mas tudo provém de Deus". (I Cor. 11.11-12 NVI); VI. Igualdade na manifestação de amor "Maridos, ame cada um a sua mulher..." (Ef. 5.25 NVI); "...assim, poderão orientar as mulheres mais jovens a amarem seus maridos..." (Tito 2.4 NVI); VII. Igualdade na sujeição mútua "Sujeitem-se uns aos outros, por temor a Cristo" (Ef. 5.21 NVI). Na seqüência desse texto, quando a orientação é direcionada à mulher (Ef. 5.22-24), a palavra submissão não aparece no original grego. A explicação que deduzo para a inclusão dela em nossas bíblias é de natureza ideológica, visando reforçar a tradição cultural da submissão. (Se quer entender melhor a influência ideológico-doutrinária na tradução da Bíblia, leia o texto de Luiz Sayão sobre o "Perfil Teológico da Nova Versão Internacional" - NVI em: http://www.editoravida.com.br/biblias_nvi/perfil_teologico.asp ). Além disso, a própria recomendação de submissão começa a clarear quando é justificada por conveniência, nas palavras de Paulo ("... como convém a quem está no Senhor" (Col. 3.18 NVI)) e ganha brilho total como estratégia de evangelização, nas palavras de Pedro ("... a fim de que, se ele não obedece à palavra, seja ganho sem palavras, pelo procedimento da mulher..." (I Pd. 3.1 NVI)). Observe que, no contexto das palavras de Pedro, ele se dirigia aos escravos ensinando que deveriam sujeitar-se aos seus senhores e usa o exemplo da sujeição de Jesus diante de injustiças, em função de uma finalidade maior que era levar pessoas à salvação. Deduz-se daí que tanto a sujeição de escravos quanto a das esposas, seriam tão injustas quanto os sofrimentos impostos a Jesus (I Pd. 2.21-24), mas sua aceitação deveria se dar porque havia algo maior em vista: a salvação de pessoas. Portanto, a sujeição recomendada não tem por objetivo perpetuar um modelo de casamento no qual as mulheres devem sujeitar-se unilateralmente aos maridos, mas estimular uma atitude que poderia facilitar a conversão deles, numa cultura machista. Logo, se marido e mulher forem cristãos, a finalidade da recomendação perde o sentido. Se o marido não for cristão, a prática da sujeição deve ser fruto de uma iniciativa desejada pela mulher e não uma regra imposta doutrinariamente, por mais piedosa que a recomendação pareça ser ou por mais virtuosa que seja a intenção dos legisladores da vida alheia. Portanto, não há como justificar a submissão unilateral da mulher, imposta como modelo permanente de relacionamento conjugal. A pergunta que me faço é: se marido e mulher são iguais na condição de filhos de Deus; no cumprimento de deveres conjugais; na autoridade sobre o corpo; na interdependência; na manifestação de amor e na sujeição, o que pretendem os que apregoam a heresia da submissão da mulher? Será que poderiam mencionar exemplos práticos de áreas que restam ou em que desejam a submissão de suas mulheres?
postado por: Comments: Quinta-feira, Agosto 17, 2006 Casamento: o princípio da harmonia Edvar Gimenes de Oliveira, Dois textos bíblicos são usados pelos que são radicalmente contrários ao "jugo desigual": o de Amós (3.3) que pergunta se andarão dois juntos se não estiverem de acordo e o de Paulo (II Cor. 6.14) que fala da incompatibilidade de comunhão entre luz e trevas. Ambos, conquanto no contexto em que são mencionados não se refiram especificamente à questão do casamento, são os que fornecem mais claramente o princípio a ser buscado por aqueles que almejam casar-se: a harmonia. Os líderes religiosos judeus sempre foram exclusivistas e consideravam o casamento misto - judeu com não judeu - como condenado por Deus (Esdras 10.10-11). Porém, na prática isso sempre foi uma tremenda dor de cabeça, pois, dos reis até o mais ilustre desconhecido, geralmente a orientação não era seguida. No inicio do cristianismo, quando o movimento era pequeno, os contornos doutrinários da fé mais nítidos e tornar-se cristão resultava em fortes atritos políticos, identificar quem era cristão era mais fácil. Porém, com o crescimento do movimento, a institucionalização da igreja, a diversificação de correntes doutrinárias, teológicas e ideológicas dentro do cristianismo e o fortalecimento cultural da individualidade em detrimento da comunidade, torna-se cada dia mais difícil definir quem é ou não cristão. Assim, o reconhecimento da presença de ¿luz e trevas¿ dentro de uma mesma igreja local, bem ao estilo do que Jesus alertou sobre trigo e joio (Mt. 13.24-30) é crescente em nossos dias. Isso implica que, haver casamento misto entre dois batistas, dois pentecostais, dois presbiterianos, dois ¿sem nome¿, enfim, é uma probabilidade indiscutível. Diante disso, nem mesmo o fato de duas pessoas serem da mesma igreja, denominação, corrente teológica ou segmento cristão seria, por si só, garantia de sucesso na relação. Creio que o princípio que os dois textos ¿ de Amós e Paulo - apontam é o da harmonia. Quanto maior harmonia de sentimentos, pensamentos, ideais, enfim, houver entre um casal, maiores as probabilidades de serem felizes. A questão é que ninguém, antes de se apaixonar, faz análise ¿matemática¿ do outro. Se fosse assim a vida seria chata. Por razões ainda não esclarecidas adequadamente, a gente simplesmente se apaixona. Daí opostos se atraírem. A Editora Mundo Cristão, se não me engano, lançou um livrinho na década de 80 intitulado ¿Os opostos se atraem¿. Na verdade a tradução literal do título em inglês, ¿Quando os opostos se atraem¿, expressaria melhor a intenção do autor. Conforme se percebe no texto, a intenção foi apontar caminhos para uma convivência saudável, quando opostos se atraem. Penso que a questão religiosa, por se tratar de algo essencial à vida humana, é uma das áreas que precisam de melhor atenção na busca da harmonia. Defendo que quanto maior harmonia houver nesta área, maiores as chances de sucesso. Esclareço, entretanto, que por harmonia espiritual quero dizer muito, mas infinitamente muito mais, do que pertencer a uma mesma denominação religiosa. Penso que, como em todas as áreas da vida, na construção de um relacionamento o casal deve ser honesto para não esconder as diferenças e também sincero para discutí-las, a fim de tentar visualizar como seria a relação depois que o ímpeto da paixão sofrer a inevitável redução. Toda relação traz consigo um risco. O que se pode fazer é avaliar as igualdades e as diferenças conhecidas e decidir se está a fim de construir a vida com aquela pessoa. Até porque diferenças que percebemos hoje podem ser equacionadas e novas diferenças certamente podem surgir. Assim, quem entra numa relação não deve faze-lo pensando que tudo se resolve com ¿beijinho, beijinho¿. Relacionamento é uma co |